Super El Niño já está em curso e deverá impactar geração de energia, produção de alimentos e vida nas grandes cidades
Em um contexto de mudanças climáticas, o El Niño é um fenômeno climático, que muitas vezes é associado a desastres, mas sobretudo vem atuando como um acelerador de crises que já existem. A questão central não é se ocorrerá o El Niño e outros fenômenos climáticos, o problema é com
Em um contexto de mudanças climáticas, o El Niño é um fenômeno climático, que muitas vezes é associado a desastres, mas sobretudo vem atuando como um acelerador de crises que já existem. A questão central não é se ocorrerá o El Niño e outros fenômenos climáticos, o problema é com que frequência ocorrerão e como afetam três sistemas fundamentais da sociedade associados à questão hídrica: energia, alimentos e cidades.
As projeções divulgadas por instituições brasileiras e internacionais indicam elevada probabilidade de um episódio de forte a muito forte do El Niño entre 2026 e 2027. A intensidade exata ainda depende da evolução do sistema climático e da realização de monitoramento constante para mensurar seus efeitos imediatos, mas os sinais são suficientemente consistentes para justificar decisões e planejamento antecipado por parte dos governos e organizações da sociedade civil.
O primeiro impacto: energia
A matriz elétrica brasileira é relativamente limpa (em comparação a outros países do G20), mas permanece fortemente dependente da água: grande parte da eletricidade do país vem de hidrelétricas, o que conecta a geração de energia elétrica ao regime de chuvas. Em um El Niño forte, a maior preocupação do ONS é o atraso das chuvas no Norte, onde estão hidrelétricas estruturantes como Belo Monte, Santo Antônio e Jirau; para preservar os reservatórios, o operador recorre a usinas termelétricas, mais caras, e esse custo chega ao consumidor pela bandeira tarifária.
Não se trata de risco de apagão, especialistas o descartam, e o setor opera hoje de forma mais antecipatória, com as lições da crise hídrica de 2021. O efeito provável é de preço, não de falta: energia elétrica mais cara para consumidores, indústria e serviços, com repasse à inflação. E esse preço não é dividido por igual, nas famílias que ganham até R$ 2.000, a conta de luz pode consumir quase 10% do orçamento, fração muito maior do que nos lares de renda alta, de modo que um El Niño que aciona a bandeira vermelha pesa mais sobre quem tem menos margem para absorvê-lo.
A segunda crise é alimentar
A agricultura brasileira depende diretamente da regularidade das chuvas. No Norte e no Nordeste, secas prolongadas reduzem a produtividade de culturas de sequeiro, comprometem a disponibilidade de água para irrigação e pressionam pequenos produtores. Em outras regiões, chuvas intensas podem provocar perdas de safra, erosão dos solos e dificuldades logísticas para escoamento da produção.
Os impactos não ficam restritos ao campo. Menor oferta de determinados produtos significa aumento de preços, pressionando principalmente o orçamento das famílias de menor renda, que destinam parcela maior de seus recursos à alimentação.
Além disso, o calor extremo afeta diretamente a produtividade do trabalho rural, aumenta a demanda por água e energia e amplia os riscos de incêndios florestais, criando um efeito cascata sobre toda a cadeia produtiva e alimentar do país.
A terceira: a crise das cidades
Grande parte dos municípios brasileiros foi planejada para um regime climático diferente do atual. Sistemas de drenagem, canais urbanos, redes de esgoto e infraestrutura viária foram dimensionados para padrões de chuva que vêm sendo rapidamente alterados.
Quando episódios extremos se tornam mais frequentes, cidades passam a conviver com enchentes recorrentes, interrupção da mobilidade, danos ao patrimônio público, contaminação das águas, sobrecarga dos serviços de saúde e aumento dos custos de manutenção da infraestrutura.
Esse processo é agravado pela expansão urbana desordenada, pela impermeabilização crescente do solo e pela ocupação de áreas de risco. Em muitas cidades, como no caso das regiões Norte e Nordeste, o problema não é apenas chover mais, é que as cidades estão com capacidade reduzida de drenar e escoar água.
Há um aspecto importante a ser considerado nessa discussão. Nenhuma dessas crises começa quando o fenômeno climático, como o El Niño, atinge seu ponto máximo. Elas começam antes, quando empresas e governos deixam de transformar previsões em planejamento e tomar as decisões mais adequadas diante da situação.
Atualmente já existem informações suficientes, como as notas técnicas elaboradas pelo INPE/INMET, para identificar regiões mais expostas, serviços essenciais que estão vulneráveis e setores econômicos mais sensíveis. O desafio deixou de ser produzir previsões mais precisas e passou a ser incorporar essas previsões às decisões políticas.
Planejar estoques estratégicos, revisar planos de contingência, proteger sistemas de monitoramento, fortalecer a drenagem urbana, diversificar fontes de abastecimento de água e ampliar a resiliência das cadeias produtivas talvez não rendam manchetes e nem votos. Mas são essas decisões estratégicas que determinam se um evento climático se transformará em crise social e quais as proporções que pode tomar.
E as decisões políticas?
O momento de agir não é durante a enchente, a seca prolongada ou a crise energética, mas quando os primeiros indicadores científicos, como no caso do Super El Niño, já apontam risco crescente. É nessa janela que estudos técnicos conseguem mapear vulnerabilidades, construir cenários, definir prioridades e orientar investimentos antes que o dano aconteça. Quando governos e empresas ignoram esses sinais, o custo raramente se limita à despesa emergencial: ele se espalha por energia, alimentos e cidades ao mesmo tempo, corrói a credibilidade institucional e expõe gestores e organizações a responsabilidades administrativas, financeiras e reputacionais.
O Super El Niño que já está em curso coloca governos e empresas diante de um desafio que vai além da meteorologia: decidir sob incerteza permanente. Anthony Giddens observa que as sociedades tendem a agir apenas quando a crise já é evidente, quando as alternativas de menor custo já desapareceram; Karl Weick mostra o oposto: instituições resilientes são as que leem o sinal cedo e o convertem em ação coordenada.
É essa a escolha que está posta. Decidir antes custa planejamento; decidir depois custa muito mais, como custou ao Rio Grande do Sul em 2024, o maior desastre natural da história do estado. O alerta já está dado; o que falta decidir é o que cada governo e cada empresa vai fazer com ele.
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.
Por Eric Daza, Doutor em engenharia elétrica, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.