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Lixo eletrônico da Europa pode ser um recurso valioso para o próprio continente

Jogar fora algo que é urgentemente necessário, caro e difícil de obter parece uma loucura. Mas dos 60 metais contidos em aparelhos eletrônicos usados, como telefones, TVs ou máquinas de lavar, apenas alguns são reciclados. Isso inclui metais preciosos, como ouro ou prata, e algun

18 de Setembro de 2026, 16:55 · Nils Pauliks, PhD Candidate, Institute of Environmental Sciences, Leiden University · 4 min de leitura
Lixo eletrônico da Europa pode ser um recurso valioso para o próprio continente

Jogar fora algo que é urgentemente necessário, caro e difícil de obter parece uma loucura. Mas dos 60 metais contidos em aparelhos eletrônicos usados, como telefones, TVs ou máquinas de lavar, apenas alguns são reciclados. Isso inclui metais preciosos, como ouro ou prata, e alguns outros, como alumínio ou cobre. Os restantes são, na prática, metais de uso único: utilizados uma vez e depois perdidos durante a coleta de resíduos ou por meio da incineração.

Metais são extraídos de minérios e refinados com o uso de muita energia e recursos, como parte de complexas cadeias de abastecimento globais. Pense no diesel necessário para alimentar os enormes caminhões na mina, nos produtos químicos necessários para extrair os metais dos minérios ou na poluição causada por fornos de alta temperatura.

Ao descartar aparelhos eletrônicos ricos em metais e não recuperar esses recursos preciosos, perdemos todo o esforço que dedicamos para extrair estas matérias-primas do solo. Esses metais, no entanto, são urgentemente necessários para tecnologias verdes, como turbinas eólicas e bombas de calor, bem como para indústrias convencionais, incluindo a fabricação de automóveis, o setor aeroespacial ou a produção de maquinário. Ao mesmo tempo, a maioria deles não está fisicamente acessível para mineração na Europa.

Em uma pesquisa publicada com meus colegas, investigamos as diferentes etapas em que os metais são desperdiçados quando itens como lâmpadas LED e aparelhos de ar-condicionado são descartados.

Constatamos que uma grande quantidade de lixo eletrônico (56%) na União Europeia (UE) entre 2006 e 2021 não foi coletada. Os metais, no entanto, só podem ser recuperados se forem encaminhados às instalações de tratamento adequadas. Aparelhos antigos costumam ser jogados na lixeira doméstica e, assim, os componentes eletrônicos ficam muito misturados com outros resíduos, de modo que os metais nunca serão separados.

Embora a quantidade de resíduos coletados tenha aumentado substancialmente nos últimos anos em alguns Estados-membros da UE, outros ainda estão ficando para trás. A coleta adequada de resíduos eletrônicos continua, portanto, sendo uma prioridade máxima em todo o continente.

Uma grande parte dos metais também é perdida durante as etapas de triagem e reciclagem, principalmente devido à triagem ineficiente. Para muitos metais, não há tecnologias de reciclagem disponíveis. A maioria dos metais preciosos, como ouro ou prata, é recuperada, enquanto metais economicamente críticos e muito procurados, como cobalto, gálio, tântalo ou tungstênio, atualmente são perdidos na incineração junto com outras substâncias indesejáveis.

Identificamos os produtos que contêm a maior quantidade de cada metal. Isso permite que os setores de coleta e reciclagem priorizem o processamento de produtos-chave.

Para o neodímio, aparelhos de som e alto-falantes, pequenos dispositivos de TI, como roteadores de rede ou discos rígidos, são os mais importantes. Laptops são uma fonte rica de gálio, por exemplo. Nosso painel online interativo apresenta informações sobre o teor de metais em 54 categorias de dispositivos. Para uma análise mais aprofundada, publicamos os dados disponíveis em um repositório de acesso aberto.

Garantindo a cadeia de suprimentos

A coleta e a reciclagem de lixo eletrônico são frequentemente negligenciadas como fonte de recursos. A quantidade de gálio presente em nosso lixo eletrônico, por exemplo, é suficiente para reduzir a dependência da UE em relação às importações desse metal em até 40%. Estima-se que as quantidades de tântalo correspondam a 23% da demanda total, assim como as de magnésio e tungstênio, ambas com 12%, além de várias outras matérias-primas críticas.

A UE poderia construir sua própria cadeia de abastecimento segura de recursos utilizando metais secundários provenientes de aparelhos eletrônicos antigos, baterias e outras fontes, como cinzas de incineração. Isso protegeria a UE contra perturbações geopolíticas em partes instáveis da cadeia de abastecimento, ao mesmo tempo em que reduziria substancialmente as consequências ambientais associadas à produção desses metais.

Isso também pode contribuir para a construção de uma economia circular, na qual os resíduos se tornam um insumo valioso para novos produtos. E ainda gerar empregos e promover o desenvolvimento de tecnologias emergentes para a recuperação eficiente de metais.

Para alcançar isso, a UE precisa se concentrar nos pontos em que os resíduos eletrônicos estão atualmente sendo descartados indevidamente, ou seja, em lixeiras inadequadas, tanto da parte dos consumidores quanto das empresas. Além disso, as exportações legais e ilegais de lixo eletrônico da UE também levam à perda de recursos metálicos.

Embora a responsabilidade principal recaia sobre os órgãos reguladores, os consumidores podem ajudar levando o lixo eletrônico às instalações de coleta adequadas e nunca descartando-o nas lixeiras domésticas. Combinado com o desenvolvimento e a implantação de tecnologias aprimoradas de reciclagem, os metais desejados podem ser recuperados de forma muito mais eficiente a partir dos resíduos que já são coletados.

A Europa não enfrenta um problema de escassez, mas um desafio de recuperação — e esse desafio pode ser resolvido. Com uma coleta mais eficaz, intervenções direcionadas e inovação contínua na reciclagem, os metais presentes em nossos resíduos eletrônicos podem se tornar uma base segura de recursos que fortaleceria a indústria europeia, reduziria as pressões ambientais e aceleraria a transição para uma economia verdadeiramente circular.

Nils Pauliks recebe financiamento do projeto Circular Circuits (P20-13), financiado pelo Conselho Holandês de Pesquisa (www.nwo.nl).

Por Nils Pauliks, PhD Candidate, Institute of Environmental Sciences, Leiden University. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.

Fonte: https://theconversation.com/lixo-eletronico-da-europa-pode-ser-um-recurso-valioso-para-o-proprio-continente-292429

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