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Os pássaros se masturbam, e isso é perfeitamente normal

Para animais em cativeiro, a manifestação de comportamentos naturais é um dos pilares do quadro de bem-estar animal. Mas, quando se trata de sexo, um comportamento importante tem sido amplamente ignorado e, às vezes, até punido: a masturbação.

26 de Junho de 2026, 18:25 · Matilda Brindle, Postdoctoral Researcher in Evolutionary Biology, University of Oxford · 4 min de leitura
Os pássaros se masturbam, e isso é perfeitamente normal

Para animais em cativeiro, a manifestação de comportamentos naturais é um dos pilares do quadro de bem-estar animal. Mas, quando se trata de sexo, um comportamento importante tem sido amplamente ignorado e, às vezes, até punido: a masturbação.

O sexo a solo é surpreendentemente comum em todo o reino animal. Isso está bem documentado nos primatas. As tartarugas são surpreendentemente barulhentas durante suas tentativas de sexo a solo, embora não sejam muito graciosas. Os camelos se masturbam esfregando o pênis na areia e os porcos-espinhos fazem uso criativo de todos os tipos de objetos.

Nosso novo estudo pode mudar a forma como outros cientistas encaram a masturbação em aves e melhorar o bem-estar delas.

A masturbação também parece ser comum entre as aves. Uma rápida pesquisa na internet revela uma abundância de vídeos nas redes sociais e postagens dedicadas em fóruns sobre criação de aves, em grande parte de criadores amadores preocupados ou perplexos.

Ela tem sido frequentemente tratada como um comportamento problemático anormal em aves em cativeiro (principalmente papagaios). A crença popular entre os criadores tem assumido que se trata de um resultado indesejável causado por estresse, saúde precária ou ambiente inadequado. Por isso, os criadores de aves frequentemente tentam coibir a masturbação por meio de punições ou intervenções veterinárias, como mudanças na dieta ou nos cuidados e, às vezes, até medicamentos e cirurgias. Apesar das implicações para o bem-estar, a masturbação em aves foi amplamente inexplorada pela comunidade científica.

Decidimos mudar isso, investigando pela primeira vez a distribuição e a história evolutiva da masturbação em aves. Estudamos 120 espécies de aves em 22 grupos principais, reunindo dados da literatura científica dispersa, de relatos online e fóruns de comunidades, além de pesquisas com especialistas em aves.

Nosso estudo constatou que a masturbação é amplamente difundida entre as aves e possui uma sólida história evolutiva, o que significa que se trata de uma característica antiga, provavelmente semelhante em espécies intimamente relacionadas. Embora tenhamos encontrado mais registros de masturbação em aves machos, ela ocorre em ambos os sexos e em todas as faixas etárias.

O sexo a solo também parece estar ligado a espécies que acasalam com múltiplos parceiros, reforçando a ideia de que isso pode ajudar a aumentar o sucesso reprodutivo quando há um alto grau de competição pela fertilização. Por exemplo, nos machos, ela pode eliminar espermatozoides antigos para deixar espermatozoides mais novos (em melhor condição) para o acasalamento. Nas fêmeas, pode aumentar a excitação sexual para facilitar o acasalamento furtivo com machos que não sejam seus parceiros.

Comportamento na natureza

Fundamentalmente, descobrimos que a masturbação é, na verdade, menos comum em cativeiro do que na natureza, e mais comum em aves criadas pelos próprios pais do que por humanos. O que isso nos diz é que a masturbação em aves não é um comportamento antinatural, nem uma consequência do cativeiro. Diante dessa descoberta, é importante que as aves não sejam impedidas de se masturbar. É claro que, como em qualquer comportamento, pode haver casos extremos em que a masturbação crônica possa indicar problemas de saúde ou de manejo.

A masturbação aviária costuma ser um ato bastante deselegante, no qual a ave esfrega sua cloaca (orifício comum tanto para a excreção quanto para a reprodução) contra um objeto, como um galho, um ramo ou um brinquedo. Isso geralmente é acompanhado por muitos batidas de asas e vocalizações de satisfação.

Uma possível razão para a falta de estudos científicos que explorem a masturbação aviária pode ser o fato de se acreditar que a cloaca tenha menos feixes nervosos e, portanto, menor sensibilidade do que nossos próprios órgãos genitais.

No entanto, está claro que as aves obtêm alguma satisfação com a masturbação; portanto, talvez haja mais nas sensações de uma ave durante o sexo do que se reconhecia anteriormente. Uma exploração mais aprofundada desse tema pode ter implicações importantes tanto para o bem-estar quanto para os programas de reprodução em cativeiro. Embora o prazer sexual possa não ser exatamente a mesma experiência que a dos mamíferos, é extremamente prematuro descartar a ideia de que as aves também sentem prazer.

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

Por Matilda Brindle, Postdoctoral Researcher in Evolutionary Biology, University of Oxford. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.

Fonte: https://theconversation.com/os-passaros-se-masturbam-e-isso-e-perfeitamente-normal-286315

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