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Como os indígenas reinventam a transição energética na Amazônia

A Amazônia opera hoje como o centro de intensas disputas globais. Por um lado, é frequentemente reduzida a um imensoestoque de recursos naturais— como reservas de petróleo, água e minerais — dos quais o mundo moderno depende para se sustentar. Por outro, é colocada como oúltimo e

26 de Junho de 2026, 09:15 · Irabete Labonté, Professora indígena, graduada em Educação Intercultural Indígena, Universidade Federal do Amapa (Unifap · 8 min de leitura

A Amazônia opera hoje como o centro de intensas disputas globais. Por um lado, é frequentemente reduzida a um imenso estoque de recursos naturais — como reservas de petróleo, água e minerais — dos quais o mundo moderno depende para se sustentar. Por outro, é colocada como o último e maior bastião de conservação ambiental do planeta.

Em meio a isso, grandes palavras-chave como sustentabilidade e transição energética, comumente utilizadas durante a COP 30, determinam os diálogos contemporâneos sobre o aquecimento global. Elas são impulsionadas pela necessidade premente de garantir a continuidade da vida em um mundo onde “crise” e “catástrofe” dominaram o dia a dia.

Diante de temas globais tão grandiosos e urgentes, respostas pensadas em pequena escala mostram-se, com frequência, muito mais pertinentes.

É o caso do potencial de produção de enegia solar na Amazônia. Lá, projetos de infraestrutura elétrica ainda costumam chegar às aldeias impostos de cima para baixo. Mas o que acontece quando essa tecnologia importada é revisitada pelas comunidades e ganha potencial como parte importante na recriação de artes, artefatos e artesanatos que integram a vida social, econômica e ritual dos povos?

A resposta não reside na dependência técnica externa, mas na capacidade criativa dos povos da Amazônia em adaptar e traduzir sistemas e tecnologias.

No Baixo Oiapoque, no Amapá, o povo indígena Palikur-Arukwayene, da Terra Indígena Uaçá, exemplifica essa dinâmica de forma brilhante. Diante de descompassos, falhas e desafios da infraestrutura, os Palikur-Arukwayene “indigenizam” a energia elétrica, integrando-a ativamente aos ritmos da sua cultura material.

No Baixo Oiapoque, no Amapá, o povo indígena Palikur-Arukwayene, da Terra Indígena Uaçá, exemplifica essa dinâmica de forma brilhante. Diante de descompassos, falhas e desafios da infraestrutura, os Palikur-Arukwayene “indigenizam” a energia elétrica, integrando-a ativamente aos ritmos da sua cultura material.

Indigenizando a energia elétrica

Lá, a energia elétrica serve de suporte direto para a recriação cosmológica. Através da arte da marcenaria e da cerâmica, manifestações importantes dos Palikur-Arukwayene, eles retroalimentam as intrincadas práticas sociotécnicas de elaboração de esculturas e peças, em um ateliê comunitário movido a energia solar.

Para os Palikur-Arukwayene, cerâmica e madeira são artes de manejo e reprodução de relações e sincronias entre indígenas e o bioma amazônico, assim como os seres — nem sempre físicos — que o habitam. E são esses os elementos analisados no projeto de pós-doutorado “Arte e técnica: regimes de conhecimento, aprendizagem e reformulações entre os povos da Terra Indígena Uaçá”, desenvolvido sob a supervisão da professora Artionka Capiberibe, do Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da Unicamp.

A pesquisa, que é derivada do projeto “Energia Limpa Vida Sustentável”, aprovado pelo edital da iniciativa Amazônia+10, acompanha a implementação de dois ateliês comunitários que buscam soluções colaborativas a desafios estratégicos, como o manejo de matérias-primas e a produção de peças e artefatos a partir do fornecimento de alternativas fotovoltaicas para o uso de ferramentas elétricas e tornos de moldar cerâmica.

A construção simétrica

A verdadeira justiça climática e tecnológica exige que o domínio das ferramentas fique nas mãos da comunidade. É por isso que esta pesquisa rompe com a postura do acadêmico que viaja à floresta apenas para observar e extrair dados. Nosso diferencial é construir junto, através de uma etnografia colaborativa e simétrica.

A própria autoria desta reflexão não é solitária, mas construída em diálogo com Irabete Labonté, mestra ceramista e atual guardiã de um conhecimento técnico e cosmológico herdado de sua avó, Nazaré Felício.

Na prática, essa simetria se reflete nas decisões sobre a própria infraestrutura. Os kits de energia fotovoltaica do projeto Energia Limpa Vida Sustentável que vem sendo implementados nas aldeias não foram pensados de forma arbitrária. A comunidade decidiu ressignificá-los, criando os ateliês comunitários.

A energia limpa deixou de ser apenas uma conveniência doméstica para se tornar um “dispositivo de coletividade” — um verdadeiro nó sociotécnico onde as placas solares alimentam ferramentas que impulsionam o trabalho de jovens e velhos mestres, articulando as metas institucionais da nossa pesquisa às demandas da aldeia por autonomia produtiva.

O “ciúme” do barro e o reencontro com a forma

Ao acompanharmos a/os mestres e artesãs/os, fica evidente que, para os Palikur-Arukwayene, a manipulação do barro e da madeira transcende o utilitarismo; é a ciência de cruzar diferentes mundos.

A produção da cerâmica, conduzida hoje pela linhagem de Irabete junto com sua irmã Marileia e os cunhados João e Juca Ioiô, opera como uma verdadeira “síntese da paisagem”. Irabete recorda com precisão como esse saber se entranhou em sua percepção:

Quando eu era criança, eu ficava ali brincando com o barro enquanto minha avó, Nazaré, moldava os potes do Turé. Foram anos só observando o jeito dela trabalhar antes de eu mesma me tornar ceramista. Agora, vejo meus filhos fazendo a mesma coisa: eles aprendem no olhar, na convivência.

Quando eu era criança, eu ficava ali brincando com o barro enquanto minha avó, Nazaré, moldava os potes do Turé. Foram anos só observando o jeito dela trabalhar antes de eu mesma me tornar ceramista. Agora, vejo meus filhos fazendo a mesma coisa: eles aprendem no olhar, na convivência.

Esse relato evidencia que o aprendizado sociotécnico Palikur opera por uma educação da atenção, onde o rigor do ofício nasce da observação e do convívio contínuo. No entanto, essa atenção treinada desde a infância não se restringe ao que acontece dentro do ateliê; ela se estende a uma profunda leitura ecológica do território, pois a confecção de uma peça começa muito antes de o barro chegar às mãos das ceramistas.

Extrair a chamada “matéria-prima” exige mergulhos profundos nos poços dos campos alagados do rio Urukauá. Esse barro (o ibug) não é moldado puro; ele é rigorosamente testado no fogo e “temperado” com as cinzas da casca da árvore caripé (kuep em parikwaki, a língua palikur), extraída da terra firme. Enquanto a casca de caripé vira o carvão que confere resistência térmica à peça, seu tronco fornece a lenha para a fogueira. Tudo está interligado em uma química perfeita do território amazônico.

E não se trata apenas de química, mas de cuidado e diplomacia. O barro é tratado como um sujeito em formação, ele ganha vitalidade a cada traço, sendo, inclusive, vulnerável a afetos.

Durante a manufatura de potes cerimoniais usados no ritual do Turé, há uma restrição rigorosa: o olhar de uma pessoa “alheia” não deve pousar sobre o trabalho. Acredita-se que o olhar estrangeiro provoca “ciúme” no pote, fazendo-o rachar no calor. A quebra da cerâmica não é compreendida como um mero erro térmico, mas como uma falha relacional entre humanos e a matéria.

Esse profundo respeito pela agência dos materiais também guia o trabalho com a madeira. Um exemplo formidável é o processo de retomada ancestral vivido recentemente pelo mestre escultor Natã dos Santos.

Após participar de uma visita estruturada pelo projeto aos acervos físicos e fotografias de bancos cerimoniais esculpidos por seu bisavô — peças coletadas nos anos 1920 pelo etnógrafo autodidata alemão Curt Nimuendaju e que hoje repousam no Museu da Cultura Mundial, na Suécia —, Natã passou a recriá-los na aldeia.

É um processo que talvez possa ser chamado de repatriação da forma, provando que a arte indígena não está congelada em vitrines; ela é um conector de memórias que devolve a agência aos mestres contemporâneos, redesenhando o passado sob a nova luz da energia solar comunitária.

Para além do rio Urukauá: a Amazônia no debate global

A experiência do povo Palikur-Arukwayene revela que o verdadeiro sucesso da transição energética não se mede apenas em watts gerados, mas na capacidade que uma infraestrutura tem de nutrir os modos de vida locais.

Quando a energia solar é apropriada para movimentar tornos e acionar ferramentas elétricas num ateliê comunitário, alimentando a arte ancestral do barro e da madeira, não estamos perante uma mera assimilação tecnológica. Estamos a testemunhar um poderoso projeto de vida decolonial em plena execução.

É precisamente para amplificar a ressonância destas práticas e para criar diálogos com experiências semelhantes noutras regiões do mundo que a presente investigação entrará numa nova fase de internacionalização. A partir de julho de 2026, estes desdobramentos, que têm se alinhado com debates interdisciplinares sobre proteção do bioma amazônico, energia limpa, infraestruturas e justiça climática, serão trabalhados numa estadia de investigação no Departamento de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Oxford (ODID/UK), em colaboração com a professora Laura Rival.

O objetivo deste intercâmbio é claro: ampliar a troca de conhecimentos e costurar diálogos propostos a partir da Amazônia, evidenciando que, perante a urgência das crises ambientais globais, as respostas mais sofisticadas, resilientes e definitivas já estão nas mãos e saberes dos povos indígenas.

A pesquisa atual que sustenta a elaboração e divulgação desta matéria é financiada por uma bolsa de pós-doutorado (2024/05113-2) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Artionka Capiberibe e Irabete Labonté não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

Por Irabete Labonté, Professora indígena, graduada em Educação Intercultural Indígena, Universidade Federal do Amapa (Unifap. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.

Fonte: https://theconversation.com/como-os-indigenas-reinventam-a-transicao-energetica-na-amazonia-285326

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