Projetos sem continuidade: pesquisador desafia candidatos à Presidência a exporem suas visões de país até 2050
Na década de 1970, poucos países tiveram uma oportunidade estratégica tão clara de transição energética quanto o Brasil teve com oProálcool. Enquanto boa parte do mundo ocidental patinava na busca por alternativas viáveis aos combustíveis fósseis, nós já consolidávamos uma soluçã
Na década de 1970, poucos países tiveram uma oportunidade estratégica tão clara de transição energética quanto o Brasil teve com o Proálcool. Enquanto boa parte do mundo ocidental patinava na busca por alternativas viáveis aos combustíveis fósseis, nós já consolidávamos uma solução madura, testada em escala continental e integrada à nossa matriz energética.
O Proálcool criou uma cadeia produtiva robusta. Nossas universidades e centros de pesquisa formaram especialistas e desenvolveram ciência de ponta. A indústria automobilística brasileira criou o motor flex — uma inovação genuinamente nacional, que transformou o ciclo fechado do carbono da cana-de-açúcar em benefício ambiental tangível.
Com o advento global dos veículos elétricos, o passo seguinte parecia óbvio: o carro híbrido movido a eletricidade e etanol. Ele resolveria o maior gargalo dos elétricos puros — a necessidade de infraestrutura de recarga em um país de dimensões continentais — aproveitando a maior rede de distribuição de biocombustíveis do mundo, já instalada em cada esquina do território nacional.
O Brasil tinha a faca, o queijo e o canavial. Não fizemos o sanduíche
Hoje, montadoras chinesas chegam ao mercado brasileiro exatamente com essa solução. E há uma ironia ainda mais profunda: parte expressiva do desenvolvimento desses veículos por lá contou com engenheiros brasileiros — formados aqui com recursos públicos nossos - que acabaram migrando para ecossistemas estrangeiros que compreendem melhor o valor do planejamento de longo prazo.
A pergunta relevante não é por que a China conseguiu. Eles traçaram planos de Estado por décadas, subsidiaram a pesquisa e o desenvolvimento, compraram conhecimento onde ele existia e executaram com disciplina.
A pergunta incômoda é por que o Brasil não conseguiu. E a resposta não está na falta de engenheiros, nem na qualidade da nossa Ciência. Ela está na nossa dificuldade histórica de transformar vantagens científicas em políticas de Estado duradouras.
A pergunta incômoda é por que o Brasil não conseguiu. E a resposta não está na falta de engenheiros, nem na qualidade da nossa Ciência. Ela está na nossa dificuldade histórica de transformar vantagens científicas em políticas de Estado duradouras.
O automóvel é apenas o espelho. Quatro anos não constroem um país — constroem um mandato
Democracias vivem ciclos eleitorais curtos. Isso é uma virtude institucional, não um defeito. O problema surge quando o horizonte de planejamento de uma nação inteira se reduz ao horizonte dos mandatos políticos.
Políticas industriais de vanguarda, infraestrutura científica complexa e desenvolvimento tecnológico disruptivo exigem décadas de maturação contínua. Presidentes ficam quatro anos. Laboratórios precisam sobreviver quarenta. Universidades formam doutores cujas contribuições mais relevantes frequentemente só aparecem vinte anos após a titulação.
Quando um país confunde rotineiramente plano de governo com política de Estado, condena-se a reinventar a roda a cada troca de guarda na capital. O preço dessa descontinuidade raramente se manifesta por rupturas dramáticas — ele se cobra de forma silenciosa: perde-se uma liderança tecnológica aqui, desestrutura-se uma cadeia produtiva acolá, assiste-se à debandada de talentos logo adiante.
Um segundo problema, igualmente estrutural: a fraca coordenação entre a atividade científica e o setor produtivo. Atingimos um nível razoável em ciência, mas isso não se traduz em impacto econômico porque o Estado nunca exerceu com consistência seu papel de indutor — incentivando, cobrando e, quando necessário, pressionando o setor empresarial a inovar com base no que nossas instituições já produzem.
Temos bons exemplos: o Proálcool, a Embraer. Mas são ilhas num arquipélago de oportunidades desperdiçadas. A Coreia do Sul oferece um contraponto instrutivo: lá, o acesso a estímulos públicos era condicionado a desempenho em exportação e inovação. Empresas que captavam recursos públicos eram cobradas por resultados.
Aqui, a lógica frequentemente se inverte — subsídios são capturados nas crises, e os prejuízos socializados, sem contrapartida de inovação. Há, porém, um fator mais profundo por trás dessa descontinuidade: interesses organizados de curto prazo — que privatizam lucros e socializam prejuízos via apropriação de subsídios públicos nas crises — encontraram formas eficazes de influenciar o processo político, tornando o horizonte de quatro anos não apenas uma limitação democrática, mas uma conveniência estrutural.
Eleitores frequentemente escolhem representantes por identidade de valores, não por planos de governo. Provocar candidatos a explicitar metas para 2050 é, portanto, também um exercício de formação do espírito crítico republicano. Somente décadas mais tarde, ao olharmos para o lado, percebemos que nos tornamos importadores da riqueza que nós mesmos ajudamos a descobrir.
Eleitores frequentemente escolhem representantes por identidade de valores, não por planos de governo. Provocar candidatos a explicitar metas para 2050 é, portanto, também um exercício de formação do espírito crítico republicano. Somente décadas mais tarde, ao olharmos para o lado, percebemos que nos tornamos importadores da riqueza que nós mesmos ajudamos a descobrir.
O laboratório que nasceu certo — e a pergunta que persiste
Em 2009, durante o segundo mandato do presidente Lula, participei da criação do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), do qual fui o diretor fundador. A missão era cirúrgica: dar robustez científica e tecnológica à liderança global que o Brasil detinha no setor de biocombustíveis.
O CTBE é, antes de tudo, um exemplo do que o Brasil é capaz quando decide agir. O governo identificou uma oportunidade estratégica, mobilizou competências e deu o tiro de partida. A instituição nasceu, cresceu e permanece ativa até hoje — prova de que políticas de Estado podem sobreviver à alternância de poder quando há base científica sólida e comprometimento institucional genuíno.
Anos depois, o CTBE foi reestruturado e tornou-se o Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), com missão científica mais ampla. Instituições precisam se adaptar, e essa evolução reflete tanto o amadurecimento da pesquisa quanto as transformações do campo energético global.
A questão que persiste, contudo, é de estratégia nacional: por que, justamente quando o planeta acelerava sua transição energética, o Brasil deixou de tratar o etanol como prioridade estratégica central? O nome mudou. E com ele, parte do foco.
O CTBE e seu sucessor demonstram que o Brasil sabe criar e sustentar instituições científicas de excelência. O desafio é garantir que a luta, a adaptação e a superação de erros — inevitáveis em qualquer trajetória institucional — ocorram dentro de uma visão estratégica de longo prazo que não se perca nas transições de governo.
Quatro ministérios, um vice-presidente entusiasmado — e nada aconteceu
A mesma dinâmica operou anos depois, de forma ainda mais nítida. Em parceria com a PUC-Campinas, passei três anos articulando a criação do Laboratório Nacional para o Desenvolvimento Sustentável (LANDS). A tese era simples: os grandes desafios do século XXI — mudanças climáticas, transição energética, segurança alimentar, biodiversidade — não podem ser enfrentados em caixas ministeriais isoladas. Exigem soluções transdisciplinares e transversais.
Percorremos quatro ministérios: Meio Ambiente; Ciência, Tecnologia e Inovação; Relações Exteriores; Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Em todos, fomos recebidos com cortesia. O projeto era elogiado. Sua relevância era reconhecida. Chegamos à Vice-Presidência da República. O projeto foi adorado. Nada aconteceu.
Essa experiência ensinou algo que nenhum manual de gestão pública descreve com clareza: projetos estruturantes no Brasil raramente fracassam porque alguém é contra. Eles fracassam porque atravessam ministérios demais, burocracias sobrepostas e calendários eleitorais concorrentes.
O LANDS não morreu por falta de interlocução. Morreu cercado de elogios. Quando há liderança, o longo prazo acontece: a lição do HIDS prova que o longo prazo não é uma impossibilidade cultural brasileira.
Na Unicamp, durante a gestão do Reitor Marcelo Knobel, atuei como Diretor Executivo de Planejamento Integrado. Foi nesse contexto que criamos o Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (HIDS) — um projeto concebido com horizonte de 20 anos, articulando pesquisa, inovação e território, com governança estabelecida e parcerias concretas. O HIDS funcionou porque contou com liderança institucional comprometida com o longo prazo e com uma estrutura que protegeu a visão da rotatividade de gestores. Não foi magia. Foi escolha.
O problema brasileiro, portanto, não é incapacidade de planejar. É incapacidade de institucionalizar o planejamento em nível federal, blindando-o da descontinuidade política que fragmenta o esforço nacional.
O Brasil de 2050 começa nas respostas de 2026
Nos próximos meses, o Brasil voltará a discutir programas de governo. Como cidadão e cientista, meu apelo é para que o debate não permaneça refém do horizonte de quatro anos.
Gostaria de convidar cada candidato à Presidência da República a apresentar ao país não apenas um conjunto de metas imediatas, mas uma visão estruturada de Brasil para 2050 — e a responder publicamente a quatro perguntas:
Quais políticas de desenvolvimento tecnológico e industrial o senhor(a) se compromete a preservar independentemente da alternância de poder?
Quais instituições científicas e laboratórios estratégicos serão blindados da descontinuidade orçamentária e burocrática?
De que maneira prática sua gestão pretende fortalecer o nexo entre universidades, centros nacionais de pesquisa, empresas e governo?
Quais mecanismos institucionais serão criados para que a sociedade civil e a comunidade científica possam monitorar e cobrar metas que ultrapassem o tempo do seu próprio mandato?
Quais políticas de desenvolvimento tecnológico e industrial o senhor(a) se compromete a preservar independentemente da alternância de poder?
Quais instituições científicas e laboratórios estratégicos serão blindados da descontinuidade orçamentária e burocrática?
De que maneira prática sua gestão pretende fortalecer o nexo entre universidades, centros nacionais de pesquisa, empresas e governo?
Quais mecanismos institucionais serão criados para que a sociedade civil e a comunidade científica possam monitorar e cobrar metas que ultrapassem o tempo do seu próprio mandato?
O convite é também uma declaração de critério: candidatos que apresentarem compromissos concretos e verificáveis com o Brasil de 2050 terão o apoio da sociedade que pensa no longo prazo. Os demais serão lembrados pelo que deixaram na gaveta.
O Brasil já demonstrou inúmeras vezes que possui criatividade, competência científica e capacidade de inovar. Chegamos primeiro no etanol. Criamos o motor flex. Formamos engenheiros que o mundo disputa. O desafio agora é de outra natureza: aprender a construir instituições que sobrevivam aos seus criadores, aos seus governos e às suas eleições.
O verdadeiro legado de um governante não é aquilo que inaugura durante seu mandato. É aquilo que continua produzindo resultados muito depois de sua saída. A pergunta que este artigo deixa a cada candidato é simples e exigente: qual instituição criada ou fortalecida no seu governo ainda estará produzindo resultados em 2050? O futuro não é um mandato. É uma construção coletiva.
O autor agradece a leitura crítica e as sugestões dos ex-reitores da Unicamp Carlos Henrique de Brito Cruz, Marcelo Knobel e Antonio José de Almeida Meirelles (Tom Zé), do ex-reitor da PUC-Campinas Germano Rigacci Júnior, do ex-Deputado Federal Walter Feldman e do fundador do LNLS e ex-diretor do CNPEM Cylon Gonçalves da Silva, cujas contribuições enriqueceram este texto. Agradece também outros leitores generosos, em especial a leitura crítica da jornalista Rosana Herman. Os eventuais erros e opiniões são de responsabilidade exclusiva do autor.
Marco A. P. Lima recebeu no passado financiamento da agências de fomento CNPq, FINEP, FAPESP, BNDES, como pessoa física e como diretor do CTBE.
Por Marco A. P. Lima, Professor aposentado do Instituto de Física Gleb Wataghin, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.