Por que talvez seja hora de repensar a árvore genealógica humana
A árvore genealógica da Humanidade é longa e complexa. Os cientistas classificam nossos ancestrais em três grandes grupos conhecidos:Homo,AustralopithecuseParanthropus.
A árvore genealógica da Humanidade é longa e complexa. Os cientistas classificam nossos ancestrais em três grandes grupos conhecidos: Homo, Australopithecus e Paranthropus.
Cada um deles é um “gênero”, o nível hierárquico imediatamente acima da espécie. (No caso do Homo sapiens, Homo é o gênero e sapiens é a espécie.)
Esses nomes dominam a forma como falamos sobre as origens humanas. Mas novos fósseis, avanços na análise genética e métodos mais rigorosos para determinar quem está relacionado a quem mostram que esses agrupamentos não refletem, na verdade, a verdadeira estrutura da nossa árvore genealógica.
Será então que chegou a hora de propor uma nova maneira de classificar os seres humanos e nossos parentes extintos mais próximos? Como defendo em um novo artigo publicado no periódico científico American Journal of Biological Anthropology, o sistema atual já deveria ter sido revisado há muito tempo.
Identificando ramos familiares
O problema central é que os grupos atuais muitas vezes não representam ramos familiares reais – o que os cientistas chamam de “clados”. Um clado é um ancestral comum e todos os seus descendentes.
Há também uma segunda questão. Idealmente, um gênero também deveria nos dizer algo sobre o comportamento, as características chave ou o modo de vida compartilhados por todas as espécies que o compõem.
O Australopithecus (que inclui o famoso esqueleto de “Lucy”) é o caso mais claro. Análises em grande escala constatam consistentemente que esse gênero não é, de forma alguma, um ramo familiar real.
O problema remonta à forma como o gênero foi originalmente definido – não por ancestralidade comum, mas por estilo de vida ou aparência compartilhados. Fósseis recentes mostram que características como o tamanho do cérebro e a forma de andar, bem como dieta e comportamento, não se encaixam perfeitamente na árvore genealógica real.
A dificuldade de encontrar características distintamente humanas
O gênero Homo tem seus próprios problemas. Características que antes se acreditava definirem nosso gênero, como cérebros grandes, uso de ferramentas e mudanças na dieta, além do bipedalismo terrestre em tempo integral, foram desacreditadas por descobertas mais recentes. Espécies como o Homo naledi e o Homo floresiensis (a chamada espécie “hobbit”) combinam cérebros pequenos e outras características “primitivas” com traços típicos de outras espécies do gênero Homo.
Hoje é difícil citar uma única característica compartilhada por todas as espécies do Homo que não seja encontrada também em alguma espécie de Paranthropus ou Australopithecus. Isso ocorre porque diferentes partes do corpo evoluem em ritmos e direções distintos, no que é chamado de evolução em mosaico. As características também tendem a evoluir mais de uma vez, de forma independente, em diferentes linhagens intimamente relacionadas que enfrentam pressões evolutivas semelhantes.
Além disso, comportamentos chave que associamos ao ser humano surgiram muito depois do próprio gênero. Os primeiros membros do Homo, conforme definido atualmente, incluem espécies com cérebros muito pequenos que podem até ter evoluído independentemente de diferentes linhagens de Australopithecus. As espécies com cérebros pequenos mencionadas acima, que sobreviveram mais tarde, podem igualmente ter origens surpreendentemente profundas e distintas.
Mesmo o Paranthropus, possivelmente o mais distinto fisicamente dos três, conhecido por suas mandíbulas pesadas e molares enormes, não está a salvo. Essas características há muito tempo são interpretadas como adaptações para a ingestão de alimentos duros, como nozes, mas as evidências agora sugerem que as espécies da África Oriental e do Sul tinham hábitos alimentares bem diferentes umas das outras e nenhuma delas dependia fortemente de alimentos duros.
Alguns pesquisadores argumentam que o grupo pode nem mesmo ser uma única linhagem, mas sim dois grupos regionais independentes que desenvolveram dentes superdimensionados, o que significa que o gênero Paranthropus também não seria um ramo familiar real, embora a maioria dos pesquisadores hoje acredite que esse grupo seja o mais provável de ser um clado genuíno entre os três hoje existentes.
Em conjunto, há atualmente poucas evidências anatômicas, comportamentais ou ecológicas que justifiquem a manutenção desses três gêneros.
Por que a classificação é importante
Isso pode parecer uma questão semântica abstrata. Mas quando os nomes dos gêneros não refletem relações reais, eles podem obscurecer padrões de descendência, exagerar as diferenças entre grupos e reforçar o pensamento ultrapassado de “primitivo versus avançado”. Com um registro fóssil em rápido crescimento e métodos aprimorados para reconstruir árvores genealógicas, a lacuna tornou-se grande demais para ser ignorada.
Uma solução é incorporar o Australopithecus e o Paranthropus em um único gênero Homo, muito maior, o que representaria um ramo real e completo da árvore genealógica. Isso resolveria o problema de “não ser um clado real”, alinharia nossa classificação à forma como tratamos espécies não humanas e explicaria melhor o cruzamento entre linhagens intimamente relacionadas ao longo dos últimos milhões de anos.
Mudar a classificação, no entanto, também teria seus custos. Perderíamos algumas distinções intuitivas nas quais os pesquisadores se baseiam, especialmente a singularidade ecológica e física do Paranthropus e, posteriormente, do Homo de cérebro grande.
A linguagem deve acompanhar a compreensão
O registro fóssil parece mostrar cada vez mais uma grande explosão ramificada de evolução que teve início há cerca de 4 milhões de anos, com dieta, tamanho do cérebro, locomoção e tamanho dos dentes variando substancialmente entre os grupos de maneiras que não correspondem necessariamente de forma clara às suas verdadeiras relações. Um grupo tão grande e complexo, moldado por migrações e repetidas explosões rápidas de evolução em traços e comportamentos específicos, é melhor captado sob um único gênero.
Nossa linguagem cotidiana também está mudando. Os seres humanos só foram formalmente reconhecidos nas últimas décadas como grandes primatas – no sentido de serem colocados na mesma família que chimpanzés, gorilas e orangotangos (Hominidae) –, mas o termo “primata”, no uso coloquial, ainda costuma excluir os seres humanos.
Da mesma forma, costuma-se supor que “macaco” seja um grupo evolutivo genuíno, mas não é. Os macacos do Novo Mundo são evolutivamente mais distantes dos macacos do Velho Mundo e dos grandes primatas do que esses dois grupos são entre si. Alguém que ouve constantemente “macacos, grandes primatas e humanos” pode, com razão, tirar conclusões erradas sobre nossas relações evolutivas.
Estamos, portanto, em um período de transição na forma como discutimos nosso lugar na árvore genealógica dos primatas, tanto na ciência quanto na linguagem cotidiana. À medida que a biologia adota cada vez mais uma taxonomia que reflete relações evolutivas genuínas, talvez seja hora de nossa terminologia — e a maneira como falamos sobre nós mesmos — acompanhar essa evolução.
Ian Towle não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Por Ian Towle, Research Fellow in Biological Anthropology, Monash University. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.
Fonte: https://theconversation.com/por-que-talvez-seja-hora-de-repensar-a-arvore-genealogica-humana-290130