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Pesquisadores e moradores da Rocinha se unem para guardar a história, entender o presente e preparar o futuro da maior favela do Brasil

Você sabia que as primeiras ruas da Rocinha foram abertas há 100 anos? E que, menos de uma década depois disso, os primeiros moradores se reuniam num clube comunitário chamado Estrela da Rocinha?

06 de Agosto de 2026, 06:46 · Marcelo Burgos, Doutor em Sociologia, professor e pesquisador do Departamento de Ciências Sociais, PUC-Rio · 7 min de leitura
Pesquisadores e moradores da Rocinha se unem para guardar a história, entender o presente e preparar o futuro da maior favela do Brasil

Você sabia que as primeiras ruas da Rocinha foram abertas há 100 anos? E que, menos de uma década depois disso, os primeiros moradores se reuniam num clube comunitário chamado Estrela da Rocinha?

De lá para cá, foram muitas transformações e um volume enorme de informações que até hoje seguem dispersas, incompletas ou simplesmente desconhecidas do público sobre uma das maiores favelas do mundo.

Produzir pesquisa e conhecimento sobre a Rocinha, junto com seus moradores, e construir novas formas de incluir a comunidade no debate público é o que nos move no Centro de Pesquisa e Articulação de Conhecimento PUC-Rocinha, o UNIR.

O pontapé do projeto, apoiado pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), foi desenvolver uma plataforma georreferenciada de dados sobre a Rocinha.

A plataforma reúne bases já existentes em órgãos públicos e sistemas administrativos, somadas a pesquisas de campo feitas diretamente no território.

Criamos e mantemos atualizado um repositório de dados estatísticos, trabalhos acadêmicos, documentos técnicos, memórias de atividades coletivas e outras formas de registro da vida na Rocinha.

O projeto reúne diferentes departamentos da PUC-Rio, entre os quais os de Arquitetura, Ciências Sociais, Geografia, Letras e Engenharia Ambiental, além de organizações da Rocinha como o Rocinha Sem Fronteira, Fala Roça e a Rocinha Resiste.

Uma favela, muitos números

Com 72 mil moradores distribuídos em mais de 30 mil moradias, espalhadas por 25 localidades diferentes, a Rocinha é considerada a favela mais populosa do país, segundo o Censo 2022 do IBGE.

A maioria de seus moradores (64%) se declara preta ou parda. Indígenas e amarelos somam menos de 1%.

Mais da metade das casas (53%) tem homens como responsáveis. E 58% dos moradores têm até 34 anos. Uma população bem mais jovem que a média carioca. Na cidade do Rio como um todo, apenas 44% dos habitantes estão nessa faixa etária.

Ainda assim, o número de pessoas mais velhas na Rocinha cresce desde 2010, sinal de que a favela também envelhece, ainda que em ritmo próprio.

Para dar conta desse retrato em movimento, reunimos agentes públicos que prestam serviços na comunidade, professores das escolas que atendem crianças e adolescentes da região e pesquisadores interessados em aprofundar seus conhecimentos sobre o território.

Juntos, construímos um repositório pensado para o futuro da Rocinha. Este repositório é alimentado por fontes como os Censos do IBGE, o Censo do PAC e o sistema de Territórios Sociais, do Instituto Pereira Passos.

Ciência e periferia

No Rio de Janeiro, favela e Ciência, ou melhor, os atores e processos envolvidos em cada uma dessas configurações, desenvolveram nas últimas décadas uma relação cada vez mais próxima. Sobretudo depois da estruturação institucional trazida pela Constituição de 1988.

Hoje, os efeitos dessa aproximação não devem ser buscados apenas na favela, já que mudanças consistentes também acontecem dentro da própria Ciência, e não somente nas ciências sociais.

Testemunhamos a consolidação de redes que unem universidades, movimentos sociais e territórios populares, caracterizadas por uma espécie de tradução negociada entre diferentes perspectivas e saberes, transformados em fatos e projetos concretos.

Essas negociações se tornam cada vez mais complexas à medida que precisam incorporar, ao mesmo tempo, atores do mundo científico e das periferias urbanas.

E resolver problemas públicos exige articulação entre diferentes atores: a sociedade civil como um todo, a mídia, diversos segmentos do poder público e o conhecimento acadêmico especializado.

Assim, um problema só se torna verdadeiramente público quando ganha exposição suficiente para formar uma opinião informada em torno dele. Essa construção se apoia na vida associativa, na cooperação e no diálogo entre atores que se reconhecem em uma preocupação compartilhada.

Acreditamos que quanto maior a diversidade de vozes envolvidas em uma questão comum, mais público o problema se torna. A participação de universidades, da mídia que amplifica debates e de ativistas engajados contribui para formar esses problemas em arenas onde convivem experiências muito diferentes sobre um mesmo tema.

Só quando essas experiências diversas se condensam em uma representação comum é que se pode dizer que um problema público foi, de fato, estabelecido.

Hoje, transformações cotidianas remodelam a relação entre Ciência e sociedade. Essas mudanças ajudam a explicar por que a articulação entre universidades e movimentos sociais fortalece conexões que, antes da pandemia, em 2020, praticamente não existiam.

O processo também criou novos espaços de engajamento, ampliou o imaginário público e abriu caminho para novos métodos de produção de conhecimento. A entrada cada vez maior de jovens pobres, majoritariamente negros, muitos deles vindos ou ainda moradores de favelas, para dentro das universidades coroa esse processo de renovação do papel da ciência.

Reconhecer esse avanço não significa ignorar o surgimento de novas formas de exclusão, que podem nascer justamente das diferenças na maneira como territórios e grupos populares se inserem nessas redes.

No caso do Rio de Janeiro, é preciso levar em conta que sua ecologia política, marcada pela forma como facções e milícias controlam territórios e populações, impõe limites claros à generalização desse novo arranjo científico.

O que muda quando a favela também faz Ciência

O desenvolvimento mais recente desse encontro entre Ciência e favela revela caminhos ainda pouco explorados. A Ciência deixa de ser representada apenas por um grupo de pesquisa universitário que se associa a atores locais para estudar um tema de interesse social. Ela passa a se tornar o próprio meio de comunicação entre esses atores.

Em outras palavras, o que temos visto não é apenas um volume maior de trabalho sobre os territórios que sempre moldaram a pesquisa urbana, mas uma mudança de qualidade na relação entre Ciência e favelas, na qual a primeira se torna também agente de inclusão e sinônimo de política pública. É nesse contexto que nasceu o UNIR.

A criação desse novo espaço universitário parte de uma constatação simples: hoje, os maiores defensores da cidade estão nas favelas e periferias, mais especificamente em seus coletivos e organizações, que há décadas lutam pelo direito à vida, à educação, à saúde, ao saneamento e à cultura.

Eles enfrentam o racismo, defendem oportunidades para crianças e jovens e resistem, de forma heroica, ao fatalismo que parece ter tomado conta de boa parte dos moradores de nossas cidades. É nessa mobilização diária, liderada por quem se recusa a aceitar as inúmeras injustiças a que está sujeito, que mora a centelha da mudança: a essência daquilo que chamamos de cidadania insurgente.

Fortalecidos por redes com universidades, esses coletivos e organizações ajudam a romper o padrão de segregação urbana enraizado no estigma da favela e em suas conotações profundamente racializadas.

A troca de conhecimentos, experiências e tecnologias sociais que essas redes fomentam reforça o compromisso com a universalização do direito à cidade. Por isso, elas também têm potencial para funcionar como barreiras simbólicas e políticas contra a expansão da narcomilícia, que não é apenas um empreendimento criminoso, mas uma lógica de tipo mafioso que concentra poder e mina a própria essência da vida urbana.

Para essa tarefa, universidades e instituições de pesquisa são um ativo fundamental, tanto na formação de jovens pesquisadores vindos das favelas, algo que já acontece, quanto na construção de projetos de pesquisa e extensão voltados para esse objetivo.

É significativo que agências de fomento como a Faperj e instituições como a Fiocruz venham lançando editais voltados especificamente para organizações de favelas e periferias.

A essas iniciativas somam-se projetos já consolidados, como a Casa Fluminense, a Redes da Maré, o Instituto Maria e João Aleixo, o Dicionário de Favelas Marielle Franco, o Plano de Ação Popular do CPX e a Expo Favela.

É dentro desse movimento mais amplo que situamos a criação da UNIR: mais uma peça em uma engrenagem que, aos poucos, transforma a Rocinha em protagonista da sua própria história.

Recebi financiamento da FAPERJ para o desenvolvimento do projeto UNIR

Por Marcelo Burgos, Doutor em Sociologia, professor e pesquisador do Departamento de Ciências Sociais, PUC-Rio. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.

Fonte: https://theconversation.com/pesquisadores-e-moradores-da-rocinha-se-unem-para-guardar-a-historia-entender-o-presente-e-preparar-o-futuro-da-maior-favela-do-brasil-288869

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