Os EUA vendem mais para o Brasil do que compram, mas ainda assim Trump está impondo tarifas elevadas às exportações brasileiras
O presidente dos EUA, Donald Trump, tem tentado justificar suas tarifasafirmando que elas podem ajudar a reduzir os déficits comerciaisque seu país registra coma maior parte do mundo. Esse argumento se baseia no fato de que quase todos os países vendem mais aos americanos do que
O presidente dos EUA, Donald Trump, tem tentado justificar suas tarifas afirmando que elas podem ajudar a reduzir os déficits comerciais que seu país registra com a maior parte do mundo. Esse argumento se baseia no fato de que quase todos os países vendem mais aos americanos do que compram dos Estados Unidos.
Mas o caso do Brasil é diferente.
Os EUA anunciaram uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros em 15 de julho de 2026. Uma segunda medida, introduzida oito dias depois, acrescentou mais 12,5 pontos percentuais a grande parte desse comércio. Ambas entraram em vigor em 24 de julho, elevando o total das tarifas para 37,5% nas áreas em que se sobrepõem.
Aqui, no entanto, o desequilíbrio se dá na direção oposta. As exportações dos EUA para a maior economia da América do Sul vêm superando suas importações há anos. Só em 2025, por exemplo, as empresas americanas exportaram cerca de US$ 54 bilhões em mercadorias para o Brasil, principalmente combustível refinado, peças de aeronaves, maquinário industrial, fertilizantes e eletrônicos. No outro sentido, os EUA importaram cerca de US$ 40 bilhões em produtos brasileiros, principalmente petróleo bruto, aço semiacabado, café, suco de laranja, celulose, carne bovina e aviões de passageiros fabricados pela Embraer, a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo.
No total, os EUA registraram um superávit comercial de US$ 14 bilhões com o Brasil no ano passado.
Apesar disso, Trump está desestimulando as importações de produtos brasileiros pelos EUA. E esta é sua segunda tentativa de fazer isso. Em julho de 2025, ele anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros que a Suprema Corte dos EUA revogou em fevereiro de 2026, juntamente com a maioria de suas outras tarifas.
Como estudiosos de economia política internacional que analisam a política comercial dos EUA e as negociações comerciais do Brasil, estamos investigando por que os EUA impuseram tarifas ao Brasil, apesar do déficit comercial do Brasil com os EUA, e como o Brasil está respondendo.
Em nossa opinião, essa disputa nunca foi realmente sobre comércio. Ela começou com as objeções de Trump a um processo criminal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro – seu aliado político no Brasil. Hoje, com o Brasil à beira de uma eleição presidencial, enfrentar Washington pode se revelar um argumento vencedor para o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva.
Muitas exceções
O governo americano isentou 471 produtos brasileiros das tarifas, entre eles café, madeira e produtos de madeira, petróleo bruto, gás natural, fertilizantes, suco de laranja e ferro-gusa. A maioria dos produtos isentos são commodities e insumos industriais que os compradores americanos teriam dificuldade em substituir rapidamente.
O que permaneceu na lista são, em sua maioria, produtos manufaturados: calçados, roupas, móveis, maquinário e etanol, o combustível veicular à base de cana-de-açúcar. Os calçados e roupas brasileiros, que competem em preço nas lojas americanas, não receberam nenhuma isenção.
Embora as negociações tenham chegado a um impasse, reuniões presenciais estão agendadas para 30 de setembro à margem de uma reunião do Grupo dos 20 (G20) em Wisconsin, que ocorrerá pouco antes de os brasileiros irem às urnas.
Impacto nas empresas americanas
Mercadorias no valor total de US$ 94 bilhões circularam entre os dois países em 2025, um volume muito inferior ao do comércio dos EUA com o Canadá, México, China ou União Europeia. Mas o Brasil figura entre os 17 maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos em termos de fluxo de mercadorias, à frente da Espanha, Austrália e Arábia Saudita.
Os produtos que ainda estão sujeitos a tarifas são, em grande parte, insumos industriais, e não produtos prontos para as prateleiras. Portanto, o custo das tarifas de Trump recai principalmente sobre as empresas americanas, que são as responsáveis pelo pagamento quando as mercadorias chegam à fronteira.
A capacidade de Trump de usar tarifas para pressionar o Brasil a mudar políticas às quais seu governo se opõe é limitada, pois a influência de Washington sobre o Brasil em questões comerciais vem diminuindo há anos. A China ultrapassou os EUA como maior parceiro comercial do Brasil em 2009 e, desde então, ampliou sua vantagem. Em 2025, a China comprou cerca de 29% das exportações brasileiras e os Estados Unidos, apenas 11%.
A redução da dependência do Brasil em relação ao mercado americano limita o que as tarifas de Trump podem alcançar. Isso ajuda a explicar por que, quando Washington impôs tarifas sobre importações de todo o mundo em 2025, os exportadores brasileiros conseguiram, em grande parte, vender seus produtos para outros mercados.
A pressão pode acabar sendo contraproducente. Em agosto de 2026, o assessor da Casa Branca Peter Navarro e o secretário do Tesouro, Scott Bessent, publicaram um relatório acusando cerca de 40 economias, incluindo o Brasil, de ajudar a China a contornar as tarifas americanas. Mas quanto mais Washington restringe o acesso brasileiro ao mercado americano, mais atraente a China se torna como compradora do que o Brasil está vendendo.
Por que Trump está mirando o Brasil
Trump não enfatizou preocupações relacionadas ao comércio quando anunciou a tarifa de 50% em julho de 2025. Em vez disso, ele criticou o processo criminal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu aliado, no que chamou de uma “caça às bruxas”. O governo dos EUA também acusou a Suprema Corte do Brasil de censurar plataformas americanas de mídia social dentro das fronteiras do país sul-americano.
Bolsonaro, que já alinhou Brasília com Washington, não pode se candidatar novamente à Presidência porque está cumprindo uma pena de 27 anos por planejar e tentar um golpe de Estado. Mas seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, está na disputa.
Flávio Bolsonaro afirma que pediu a Trump para não impor tarifas. Mas seu irmão Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal, passou meses em Washington pressionando o governo Trump para punir autoridades brasileiras por causa do processo contra o pai deles e apoiou a imposição das tarifas.
Mesmo assim, os resultados das pesquisas apontam para um empate técnico entre Flávio Bolsonaro e Lula. Outros 13 candidatos menos conhecidos também disputam a Presidência.
Respondendo às tarifas de Trump
Depois que a Suprema Corte dos EUA derrubou a primeira rodada de tarifas do governo Trump, o presidente americano tentou usar um instrumento jurídico diferente: a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Essa lei permite que um presidente tome medidas de retaliação contra práticas estrangeiras que considere injustas.
Na segunda investigação comercial, os EUA impuseram tarifas adicionais ao Brasil e outros 59 países, o que, segundo o governo Trump, estavam relacionadas ao suposto uso de trabalho forçado em suas cadeias de suprimentos.
Inicialmente, o Brasil não dispunha de meios para responder a nenhuma das duas rodadas de tarifas dos EUA.
Mas, em 2025, o Congresso brasileiro aprovou uma nova lei de “reciprocidade econômica” que se baseia na lógica da Seção 301. Ela permite que o Poder Executivo determine se uma medida tomada por um país estrangeiro prejudica a competitividade brasileira. Se for o caso, o governo pode impor tarifas como contramedidas ou suspender obrigações relacionadas à propriedade intelectual.
O Brasil instaurou seu primeiro processo com base nessa lei em 13 de agosto de 2026. O processo é contra os Estados Unidos.
É claro que a abertura de um processo não garante que o Brasil vá retaliar. O procedimento passa por sete etapas administrativas que, juntas, podem levar mais de seis meses.
O Brasil também está trabalhando em uma estratégia multilateral mais lenta. O país levou a disputa à Organização Mundial do Comércio (OMC), órgão com sede em Genebra que elabora e faz cumprir as regras do comércio global. A primeira etapa de qualquer processo na OMC é uma rodada de negociações formais chamada de consultas, que os dois governos são obrigados a realizar antes que a disputa possa avançar.
Como as consultas com Washington terminaram em agosto sem um acordo, o Brasil afirma que solicitará a formação de um painel formal de disputa na OMC, que decidirá se as tarifas dos EUA violam as regras da organização.
A China também aderiu a essa denúncia, com Índia, Indonésia, África do Sul, Colômbia e Egito se somando como partes interessadas.
Por que o Brasil pode não retaliar
Consideramos improvável que o Brasil tome qualquer medida oficial de retaliação contra os EUA devido ao desequilíbrio de poder inerente.
O mercado consumidor dos EUA é muito maior do que o do Brasil, e há outras assimetrias. O sistema financeiro baseado no dólar e o controle de Washington sobre tecnologias críticas dão aos Estados Unidos meios de intensificar disputas comerciais que o Brasil não consegue contornar. Uma disputa comercial poderia se estender a áreas nas quais o Brasil não tem como responder da mesma forma.
A situação do Canadá mostra como seria essa alternativa. Após o fracasso das negociações comerciais com Washington, Ottawa respondeu às tarifas americanas em agosto de 2026 com tarifas de até 50% sobre centenas de produtos dos EUA, aprofundando uma guerra comercial entre dois países que estavam entre os parceiros comerciais mais próximos do mundo. O Canadá envia cerca de três quartos de suas exportações para os Estados Unidos, o que confere à sua retaliação um impacto real – mesmo que essas tarifas possam comprometer sua própria economia. O Brasil não tem essa vantagem.
Mesmo que o Brasil nunca retalie, as medidas que está tomando nesse sentido permitem que o governo mostre aos eleitores que está fazendo algo.
Os índices de aprovação de Lula, que vinham caindo, se recuperaram depois que ele colocou a soberania nacional no centro de sua resposta a Washington. Seus assessores afirmam que não esperam um acordo com Washington para suspender as tarifas antes das eleições de 4 de outubro.
E se o Brasil algum dia ativará sua versão da Seção 301 para lidar com o que considera práticas comerciais desleais pode depender de quem vencer a eleição presidencial brasileira.
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.
Por Henrique Menezes, Associate Professor of International Relations, Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.