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Os canhotos votam mais à esquerda?

Preferências políticas costumam ser explicadas pela renda, idade ou nível de escolaridade. Mas nossas pesquisas sugerem que um traço muito mais inesperado também poderia desempenhar um papel: ser canhoto. Com base em uma pesquisa realizada em 18 países ocidentais, observamos que

25 de Setembro de 2026, 14:46 · Jérémie Bertrand, Professeur de finance, LEM-CNRS 9221, IÉSEG School of Management · 6 min de leitura
Os canhotos votam mais à esquerda?

Preferências políticas costumam ser explicadas pela renda, idade ou nível de escolaridade. Mas nossas pesquisas sugerem que um traço muito mais inesperado também poderia desempenhar um papel: ser canhoto. Com base em uma pesquisa realizada em 18 países ocidentais, observamos que os canhotos se posicionam mais à esquerda politicamente. Um resultado que parece estar mais ligado à identidade do que à biologia.

A questão parece uma piada. Nossos estudos, porém, mostram que existe de fato uma relação estatística entre ser canhoto e tender politicamente para a esquerda.

Em um estudo recente realizado no âmbito de nossas pesquisas acadêmicas, quisemos determinar se uma característica tão comum quanto a lateralidade — ser canhoto ou destro — poderia estar relacionada às opiniões políticas.

Para descobrir isso, realizamos um levantamento com 1.404 pessoas em 18 países ocidentais, incluindo França, Alemanha, Estados Unidos, Itália e Espanha. Os participantes indicaram sua posição política em uma escala de dez pontos que vai da direita à esquerda, bem como sua lateralidade. Em seguida, comparamos as respostas levando em conta diversos fatores, como idade, renda, gênero e nível de escolaridade.

Não se trata de uma amostra representativa de cada país: a pesquisa foi realizada online, com uma grande proporção de participantes do Reino Unido. Mas nossos resultados permanecem semelhantes quando excluímos esse país da análise. Optamos por nos concentrar em países ocidentais para evitar que percepções muito negativas sobre o fato de ser canhoto — ainda presentes na Ásia ou na África — distorcessem as respostas.

O que mostram os dados

Primeiro resultado: as pessoas que se declaram canhotas se posicionam significativamente mais à esquerda do que as destras. A diferença está longe de ser insignificante: os canhotos situam-se, em média, cerca de meio ponto mais à esquerda em uma escala política de dez pontos. Isso pode parecer pouco, mas é mais significativo do que o papel do gênero: em nossa amostra, as mulheres situam-se 0,4 ponto mais à esquerda do que os homens.

Nosso resultado mais interessante surge, no entanto, quando medimos a lateralidade de outra forma. Em vez de simplesmente perguntar às pessoas se se consideram canhotas, observamos qual mão elas realmente usam em várias atividades cotidianas: escrever, usar tesouras, escovar os dentes ou arremessar uma bola.

E aí, a relação com as opiniões políticas desaparece. Esse resultado é importante: se a biologia fosse um fator primário para explicar o posicionamento político, deveríamos encontrar um efeito ao medir concretamente o uso da mão esquerda nos gestos do dia a dia. Mas esse não é o caso. Em outras palavras, não é tanto o fato de usar predominantemente a mão esquerda que parece importar, mas sim o de se perceber como canhoto.

Essa interpretação é reforçada por outro resultado: a relação entre ser canhoto e a orientação política é particularmente marcante em países latinos como França, Espanha e Itália, onde a oposição entre “a esquerda” e “a direita” estrutura fortemente o debate político. Quanto mais essa distinção simbólica está presente no debate público, mais forte parece ser o efeito.

Esses resultados sugerem, portanto, que o efeito observado decorre mais de mecanismos identitários e simbólicos do que de diferenças neurológicas profundas. Resta entender por que o fato de se perceber como canhoto poderia estar associado a uma orientação mais à esquerda.

Por que os canhotos se declaram mais frequentemente de esquerda?

A ciência política há muito se interessa pelos fatores sociais que moldam as preferências eleitorais. Mas uma literatura científica mais recente convida a ampliar o olhar: certos traços individuais, ligados à personalidade ou a disposições mais profundas, também poderiam contribuir para moldar a orientação política. Pesquisadores em ciências políticas Gerber et al. (2010) e Mondak (2010) demonstraram, assim, o papel de traços de personalidade como a abertura à experiência ou a extroversão nos comportamentos políticos; enquanto o estudo de Alford, Funk e Hibbing (2005) evidenciou, com base em dados sobre gêmeos, a parcela biologicamente hereditária da ideologia política.

No nosso caso, três mecanismos podem ajudar a interpretar os resultados.

A palavra “esquerda” pode moldar nossa identidade política?

À primeira vista, a relação pode parecer puramente linguística: a palavra “esquerda” designa tanto uma preferência manual quanto uma ideologia política. Várias hipóteses, porém, sugerem que tal relação poderia decorrer de processos psicológicos ou biológicos.

Um primeiro mecanismo é o egotismo implícito: tendemos a preferir inconscientemente aquilo que se assemelha a nós. Estudos mostram, assim, que as pessoas escolhem com mais frequência profissões ou lugares cujos nomes são semelhantes aos seus. Assim, nos Estados Unidos, pessoas chamadas “Lawrence” tornam-se com mais frequência advogados (“lawyer”), enquanto os “Louis” moram com mais frequência em Saint Louis (Missouri). Da mesma forma, os consumidores estão mais propensos a escolher uma marca quando ela começa com as mesmas letras do próprio nome.

Esses mecanismos são amplamente inconscientes: as pessoas geralmente não percebem que essas semelhanças influenciam suas preferências.

Nessa lógica, a palavra “esquerda” pode criar, entre os canhotos, uma afinidade sutil e inconsciente no âmbito político. Como eles frequentemente usam a palavra “esquerda” para descrever uma dimensão fundamental de sua identidade, podem sentir uma maior afinidade com os movimentos políticos associados à esquerda.

Da minoria estigmatizada aos valores progressistas

Um segundo mecanismo baseia-se na experiência social das pessoas que pertencem a um grupo minoritário. Os canhotos representam uma parcela relativamente pequena da população (de 10% a 15%) e, historicamente, têm enfrentado estigmatização social. Até a década de 1970, muitas crianças canhotas ainda eram forçadas a escrever com a mão direita na escola, especialmente na França. Em algumas culturas, como na Índia ou no Oriente Médio, comer com a mão esquerda ainda hoje é mal visto.

A própria linguagem conserva vestígios dessa história. Não é por acaso que a palavra “gauche” também designa, em francês, alguém desajeitado, e que “sinistra” significa tanto “esquerda” quanto “sinistro” em italiano.

Pertencer a uma minoria pode, portanto, favorecer atitudes que valorizem mais a tolerância e a proteção das minorias, valores frequentemente associados à esquerda política.

Os canhotos têm um cérebro diferente?

Uma terceira hipótese é de natureza neurobiológica. A preferência pela mão esquerda ou direita reflete, em parte, a organização do cérebro, moldada logo no início do desenvolvimento. Nos canhotos, as funções cerebrais estão, em média, um pouco menos distribuídas entre os dois hemisférios, com maior intercâmbio entre eles. Alguns pesquisadores associam essa organização a uma maior flexibilidade cognitiva e a uma maior abertura a novas ideias, características frequentemente ligadas às sensibilidades políticas de esquerda.

Mas nossos resultados levam a relativizar essa explicação biológica: o efeito surge quando as pessoas se declaram canhotas, e não quando se mede apenas o uso da mão esquerda em atividades cotidianas.

Nossas opiniões políticas são realmente racionais?

É claro que nosso estudo não significa que todos os canhotos votem na esquerda, nem que bastaria mudar de mão para mudar de ideologia. O fato de Fidel Castro ter sido canhoto e Benjamin Netanyahu também ser mostra que os canhotos não podem ser reduzidos a uma categoria eleitoral homogênea.

Por outro lado, esses trabalhos relembram um elemento essencial: nossas opiniões políticas são provavelmente menos racionais do que imaginamos. Elas também podem ser influenciadas por experiências sociais e associações simbólicas das quais sequer temos consciência.

E isso levanta uma questão fascinante: quantas outras características aparentemente insignificantes influenciam silenciosamente nossas escolhas políticas? Os pesquisadores estão começando a identificá-las, como o fato de ter irmãs, o que tornaria os homens mais conservadores.

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

Por Jérémie Bertrand, Professeur de finance, LEM-CNRS 9221, IÉSEG School of Management. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.

Fonte: https://theconversation.com/os-canhotos-votam-mais-a-esquerda-292945

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