OPINIÃO: Desequilíbrio de ecossistemas pode levar o Brasil para o epicentro da próxima pandemia
Enquanto o mundo tenta, de forma quase obstinada, virar a página da Covid-19, a humanidade ainda carrega as cicatrizes físicas e sociais do trauma.
Enquanto o mundo tenta, de forma quase obstinada, virar a página da Covid-19, a humanidade ainda carrega as cicatrizes físicas e sociais do trauma.
O saldo dramático de milhões de vidas perdidas no Brasil e no mundo não ficou no passado. Ele se estende silenciosamente no presente por meio da chamada “Covid longa”.
Milhares de pessoas enfrentam diariamente sequelas crônicas, neurológicas e cardiovasculares. Essas vítimas nos lembram de que os impactos de uma pandemia não se encerram com o fim da emergência sanitária.
A maior lição da Covid-19 deveria ter sido a preparação. Contudo, o cenário global aponta para o oposto.
Ameaças latentes, como o ressurgimento e a gravidade do vírus Marburg e de cepas do vírus Ebola na África, mostram que o risco de uma nova crise hemorrágica global é real e iminente. A OMS já até ampliou a advertência mundial em relação ao Ebola Bundibugyo.
O tempo de trânsito de um patógeno entre um vilarejo isolado e qualquer metrópole global é tragicamente menor do que o seu período de incubação.
E por outro lado, assistimos hoje a uma asfixia deliberada das defesas sanitárias globais. A decisão política de países como os Estados Unidos e a Argentina de se retirarem ou cortarem severamente os laços com a Organização Mundial da Saúde (OMS) empurra a instituição para uma situação de penúria financeira crônica.
Retirar o financiamento da OMS no momento em que a vigilância epidemiológica global precisa ser expandida é um ato de sabotagem contra a segurança coletiva.
Esse isolacionismo se agrava com o desmonte interno promovido pelo atual governo americano na saúde pública.
Sob a liderança do secretário Robert F. Kennedy Jr., assiste-se a um enfraquecimento ideológico e orçamentário de pilares da ciência mundial: o National Institutes of Health (NIH) e o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), além do sufocamento de grandes universidades americanas.
Quando a maior potência científica do planeta boicota suas próprias agências de controle, a humanidade inteira perde seus olhos e sentidos na linha de frente contra os vírus.
A vitória da ciência contra o negacionismo
No Brasil, conhecemos bem o preço do negacionismo institucionalizado. Marcus Lacerda, pesquisador da Fiocruz na Amazônia, enfrentou severa perseguição política e ameaças de morte no governo anterior simplesmente por cumprir seu dever científico e mostrar a ineficácia da cloroquina e da ivermectina na Covid-19.
A história, contudo, costuma ser justa com a ciência: hoje, Lacerda foi acolhido internacionalmente e assumiu o destacado posto de diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR) da OMS. Esse reconhecimento demonstra que a dignidade acadêmica resiste ao obscurantismo.
A urgência de manter a guarda alta ganha contornos dramáticos no solo brasileiro.
Recentemente, um estudo coordenado pela cientista Ester Sabino da USP e publicado na PLOS Neglected Tropical Diseases reacendeu um alerta crucial sobre o vírus Sabiá.
Causador de uma febre hemorrágica e neurológica gravíssima, com quatro casos fatais históricos no estado de São Paulo, descobriu-se que esse Arenavírus circula silenciosamente no ecossistema brasileiro há pelo menos 142 anos. E um alerta importante é que o vírus apresenta variações genéticas preocupantes ao longo do tempo.
O perigo não é hipotético. Ele está sob os nossos pés e é ativamente alimentado pela degradação ambiental.
Como discuti em artigo recente, o desmatamento agressivo e o avanço de obras de infraestrutura sem o devido rigor ecológico no coração da floresta — como o polêmico asfaltamento da rodovia BR-319 — funcionam como verdadeiros convites ao desastre.
Nesse sentido, os avisos do ecólogo Philip Fearnside são categóricos. Rasgar a Amazônia sem salvaguardas rigorosas destrói a governança ambiental da região.
Epicentro da próxima pandemia
Ao romper ecossistemas profundos, desequilibramos nichos biológicos e entramos em contato direto com hospedeiros de vírus desconhecidos.
O Brasil não será apenas uma vítima da próxima pandemia. Corremos o risco de sermos o seu epicentro.
Esta percepção de que os riscos são múltiplos e exigem vigilância contínua é o que move a resiliente Organização Mundial da Saúde (OMS) a coordenar frentes estratégicas de prevenção global.
A agência sinalizou os patógenos com maior potencial para desencadear uma futura pandemia, organizados em famílias críticas.
Entre eles, os letais Filovírus (Ebola e Marburg); os Coronavírus (SARS, MERS e variantes).
Além desses, temos ainda os altamente fatais Paramixovírus (Nipah); os Arenavírus e Bunyavirales, que abrigam o nosso vírus Sabiá, Lassa e Lujo); os Flavivírus (Dengue, Zika e Febre Amarela).
E soma-se ainda a essa lista a temida Doença X, representação de um agente ainda desconhecido, mas geneticamente capaz de paralisar o mundo.
Mais do que enumerar as ameaças, a ciência internacional precisa saber rastreá-las na raiz. É exatamente aí que o Brasil assume protagonismo.
Novos patógenos
Sob a chancela do Grupo Consultivo Científico para Origens de Novos Patógenos (SAGO/OMS), a OMS estabeleceu uma estrutura unificada baseada na integração entre a saúde humana, animal e ambiental. Esse grupo conta com a participação do cientista brasileiro Carlos Morel, diretor do CDTS/Fiocruz.
Publicadas em consórcio global na revista Nature Communications, essas regras de governança ecológica e laboratorial determinam como os países devem agir nos primeiros dias de um surto. O objetivo é evitar que o transbordo (spillover) de um vírus se transforme em uma nova tragédia coletiva.
O enfrentamento desse cenário de vulnerabilidade exige, fundamentalmente, o fortalecimento da nossa soberania científica.
O Brasil possui uma linha de frente robusta e histórica, composta por instituições de excelência como a Fiocruz e o Instituto Butantan, que será ampliada com a futura consolidação do Projeto Orion.
Este projeto contempla um complexo de laboratórios de máxima segurança biológica (NB4) no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (Projeto Orion/CNPEM).
Todavia, a inovação tecnológica não nasce no vácuo e nem se sustenta por voluntarismo. É imperativo o apoio governamental contínuo e robusto por meio de agências de fomento como o CNPq, a Finep, o Ministério da Saúde e as Faps.
O investimento em pesquisa básica e no complexo industrial da saúde não pode ser tratado como gasto corrente ou contingenciável. Trata-se de um investimento estratégico na defesa da vida da população dependente do Sistema Único de Saúde (SUS).
Diante do avanço do negacionismo, do isolacionismo e do desmonte de agências internacionais estratégicas, torna-se imperativo que as nossas agências de fomento atuem de forma mais agressiva na ampliação da atração de talentos globais.
Esses cientistas podem contribuir para o desenvolvimento de tecnologias disruptivas voltadas ao Complexo Econômico-Industrial da Saúde e ao fortalecimento do SUS, como o desenvolvimento de novos imunizantes para patógenos perigosos como o Ebola, Marburg, Sabiá, entre outros.
Paralelamente, a cooperação internacional e o intercâmbio permanente com instituições do calibre do Institut Pasteur, Imperial College, Instituto Karolinska, as universidades de Harvard e Oxford, além de centros de excelência em pesquisa básica e biotecnologia na Europa e na China, precisam ser massivamente ampliados e financiados pela Capes, CNPq, Finep e Faps, consolidando a nossa soberania científica.
Isolar a ciência, flertar com o negacionismo ou negligenciar a devastação ambiental é assinar, de forma antecipada, a nossa derrota para o próximo vírus.
Renato Cordeiro não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Por Renato Cordeiro, Professor Emérito, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.