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O que mantém estudantes motivados na escola? Um estudo com adolescentes do Rio de Janeiro traz pistas

O Brasil tem mais de 47 milhões de estudantes matriculados na educação básica, distribuídos em cerca de 179 mil escolas.

17 de Junho de 2026, 09:26 · Vanessa Barbosa Romera Leme, Professora Associada no Departamento de Cognição e Desenvolvimento, no Instituto de Psicolo · 5 min de leitura
O que mantém estudantes motivados na escola? Um estudo com adolescentes do Rio de Janeiro traz pistas

O Brasil tem mais de 47 milhões de estudantes matriculados na educação básica, distribuídos em cerca de 179 mil escolas.

Apesar da ampliação do acesso à educação, muitos desafios persistem. Eles incluem a evasão escolar, a repetência, desigualdades sociais e dificuldades de aprendizagem, que ainda afetam milhões de crianças e adolescentes.

Nos anos finais do ensino fundamental, esses problemas tornam-se particularmente preocupantes. É nessa etapa que muitos estudantes demonstram desinteresse pelas atividades escolares. Além disso, apresentam faltas frequentes e, em alguns casos, abandonam a escola

Mesmo dos avanços observados nas últimas décadas, o abandono escolar continua sendo um problema relevante no Brasil. Um em cada quatro jovens até 19 anos deixa a escola antes de concluir o ensino médio.

Mas o que faz um adolescente permanecer envolvido com os estudos? Essa foi a pergunta que orientou nossa pesquisa, realizada no programa de pós-graduação em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Investigando o engajamento escolar

Embora o tema seja amplamente estudado em outros países, ainda existem poucas pesquisas brasileiras sobre engajamento escolar entre estudantes dos anos finais do ensino fundamental.

O conceito refere-se ao grau de envolvimento dos estudantes com a vida escolar. Isso inclui participar das aulas, prestar atenção às atividades propostas, sentir-se pertencente à escola e manter interesse pela aprendizagem.

Diversos estudos mostram que estudantes mais engajados tendem a apresentar melhor desempenho acadêmico, maior motivação para aprender e menores riscos de evasão escolar.

Para investigar quais fatores influenciam esse engajamento, ouvimos 659 estudantes. Eles tinham entre 10 e 18 anos, estavam matriculados entre o 6º ao 9º ano, de oito escolas públicas. Todas as escolas eram de um município da região leste do Estado do Rio de Janeiro.

As escolas atendiam comunidades marcadas por vulnerabilidades sociais e econômicas. O estudo incluiu estudantes moradores de favelas e famílias de baixa renda.

O papel das relações sociais

Nossa pesquisa analisou tanto fatores de risco quanto fatores de proteção. Entre os fatores de risco, estavam a repetência escolar e experiências de bullying e cyberbullying.

Entre os fatores de proteção, avaliamos habilidades sociais, percepção de apoio social e aspectos do clima escolar. Os resultados revelaram uma tendência clara.

Estudantes que percebiam maior apoio social, possuíam melhores habilidades de relacionamento e avaliavam de forma mais positiva o ambiente escolar. Esses estudantes apresentaram níveis mais elevados de engajamento.

Em outras palavras, sentir-se acolhido, respeitado e apoiado parece fazer diferença para o envolvimento dos adolescentes com a escola. Por outro lado, estudantes que relataram experiências de bullying, cyberbullying ou histórico de repetência tendiam a apresentar menores níveis de engajamento.

Embora essas associações tenham sido relativamente modestas, reforçam evidências já encontradas na literatura internacional sobre os impactos negativos para a trajetória escolar.

A importância dos professores

Um dos resultados mais relevantes foi a associação entre o apoio percebido dos professores e diferentes dimensões do engajamento escolar.

Quando os estudantes sentem que seus professores se importam com eles, estão disponíveis para ajudar e mantêm relações positivas em sala de aula, a tendência é que se envolvam mais com as atividades escolares.

Esse achado chama atenção porque frequentemente os debates sobre qualidade da educação concentram-se em infraestrutura, currículo ou avaliações de desempenho. Embora esses aspectos sejam importantes, nossas evidências sugerem que as relações humanas dentro da escola também desempenham papel fundamental.

O vínculo entre professores e estudantes pode funcionar como um importante fator de proteção. E isso é especialmente importante em contextos de vulnerabilidade social.

O que esses resultados significam para as escolas?

Os achados indicam que políticas e programas voltados ao fortalecimento das relações interpessoais no ambiente escolar podem contribuir para reduzir problemas como evasão, absenteísmo e desmotivação.

Isso inclui iniciativas de prevenção ao bullying, promoção de habilidades socioemocionais, fortalecimento da convivência escolar e valorização das relações entre professores e estudantes.

Mais do que transmitir conteúdos, a escola também é um espaço de construção de vínculos, pertencimento e desenvolvimento humano. Quando adolescentes se sentem acolhidos e apoiados, aumentam as chances de que permaneçam na escola. E mais: se sentem motivados a participarem das atividades e desenvolverem seu potencial acadêmico e social.

O que ainda precisamos investigar

Como toda pesquisa, nosso estudo possui limitações. Os dados foram coletados apenas em escolas públicas urbanas de uma região específica do Estado do Rio de Janeiro.

Pesquisas futuras poderão ampliar essa investigação para escolas privadas e áreas rurais. Além disso, é importante incluir informações fornecidas por familiares e professores.

Estudos longitudinais também são necessários para compreender melhor como essas relações se desenvolvem ao longo do tempo.

Apesar dessas limitações, os resultados reforçam uma mensagem importante.

Promover o engajamento escolar não depende apenas de melhorar o desempenho acadêmico. Também exige investir em relações de qualidade, apoio social e ambientes escolares capazes de favorecer o desenvolvimento e o bem-estar dos estudantes.

Esta pesquisa foi financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A publicação deste artigo contou com o apoio da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Ana Júlia de Carvalho Pereira Alves recebe uma bolsa de doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ)

Vanessa Barbosa Romera Leme recebe financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj)(https://www.faperj.br/) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)(https://www.gov.br/cnpq/pt-br).

Por Vanessa Barbosa Romera Leme, Professora Associada no Departamento de Cognição e Desenvolvimento, no Instituto de Psicolo. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.

Fonte: https://theconversation.com/o-que-mantem-estudantes-motivados-na-escola-um-estudo-com-adolescentes-do-rio-de-janeiro-traz-pistas-284891

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