No ‘corre’ para sobreviver: a realidade dos entregadores de aplicativos no Brasil
A imagem é impactante: um entregador trabalhando com a perna gravemente lesionada. A foto foi publicada pelo próprio trabalhador em um grupo de entregadores nas redes sociais, acompanhada de uma mensagem que ressalta que, apesar da dor, ele precisa sustentar a família.
A imagem é impactante: um entregador trabalhando com a perna gravemente lesionada. A foto foi publicada pelo próprio trabalhador em um grupo de entregadores nas redes sociais, acompanhada de uma mensagem que ressalta que, apesar da dor, ele precisa sustentar a família.
Trabalhar machucado é comum nessa categoria. A postagem gerou dezenas de comentários de colegas relatando experiências semelhantes: “Já trabalhei com inchaço no tornozelo, má circulação e a dor é a mesma de quebrado ou imobilizado. Mal dava para pôr o pé no chão e tinha que trabalhar de moto”, escreveu um deles. “Eu trabalho há quatro anos na rua usando bengala, remédios fortes e nem por isso tenho reconhecimento”, respondeu outro.
Esses relatos ajudam a ilustrar a realidade desses trabalhadores. Apesar de serem cada vez mais essenciais à sociedade, não contam com proteção legal adequada e enfrentam dificuldades para que a regulamentação de suas atividades seja votada no Congresso Nacional.
O serviço é mediado por plataformas digitais, como iFood e Rappi, que definem quem recebe os pedidos, quanto será pago e quais profissionais terão prioridade nas corridas. Nas próximas semanas, está prevista a retomada do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o reconhecimento do vínculo empregatício entre motoristas e entregadores de aplicativos.
Nas corridas e nas redes
Durante seis anos, Fernando Pereira e eu, Ana Heloísa da Costa Lemos, investigamos a realidade dessas pessoas, numa pesquisa que fez parte da tese de doutorado de Fernando, defendida recentemente no Departamento de Administração da PUC-Rio, sob minha orientação.
Para realizar a pesquisa, usamos a chamada netnografia como método, uma adaptação de técnicas da etnografia ao estudo de comunidades online. Diariamente, acompanhamos grupos de entregadores nas redes sociais para compreender como esses trabalhadores discutem suas condições de trabalho, constroem redes de apoio e se organizam coletivamente.
No período, observamos 46 grupos de entregadores e foram analisadas 378 postagens com mais de 17 mil comentários. Constatou-se que as redes sociais vêm se tornando espaços centrais de solidariedade, de troca de informações e de mobilização da categoria. Nelas, os entregadores compartilham relatos sobre ganhos, acidentes, estratégias de trabalho e dificuldades da rotina. Trata-se também de um espaço de disputas simbólicas e políticas acerca das percepções pessoais sobre as vantagens e desvantagens dessa modalidade de trabalho.
Baixa remuneração e muito trabalho
O estudo mostrou que as condições de trabalho dos entregadores são precárias. A remuneração baixa é a sua marca. A cada entrega, recebem cerca de R$ 7. Muitos relatam que precisam permanecer conectados por longos períodos para atingir o ganho mínimo, o que os leva a trabalhar por jornadas de 12, 13 ou até 14 horas por dia.
Dados recentes do IBGE (2025) e do IPEA (2024) mostram ainda que os entregadores de aplicativos trabalham, em média, 46,4 horas por semana e recebem cerca de R$2.340,00 por mês. Apenas 35,9% contribuem para a Previdência Social.
Muitas vezes, as rotinas longas sequer são recompensadas com um volume maior de entregas, como exemplifica o relato de um entregador de São Paulo: “Hoje foi ruim para todos. Fiz duas corridas e fiquei sete horas na rua.”
Além disso, eles precisam arcar com todos os custos da atividade. Combustível, manutenção da moto, troca de pneus, celular, internet e multas são integralmente pagos pelos trabalhadores. Para amenizar esse peso, o governo acaba de lançar uma linha de crédito para que entregadores financiem motos e bicicletas elétricas, mas ainda não se sabe qual será o impacto dessa medida.
Nas discussões, as principais formas mencionadas para aumentar os ganhos eram as bonificações e as taxas dinâmicas oferecidas pelas plataformas. Porém, os entregadores também afirmavam que esses incentivos têm se tornado cada vez mais raros e concentrados em grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo. Algumas análises mostram que o cálculo dessas tarifas parece ter realmente mudado, dando lugar a algoritmos mais complexos.
Os riscos também fazem parte da rotina. Situações de acidentes de trânsito e de violência ocorrem com frequência e são relatadas nos grupos. É comum encontrar publicações de entregadores afastados após colisões ou quedas. Sem conseguir trabalhar e diante da falta de proteção trabalhista, muitos recorrem a campanhas de arrecadação entre colegas para sobreviver durante o período de recuperação.
Situações de humilhação também fazem parte do cotidiano dos entregadores. Muitas vezes, eles lidam com o desrespeito de clientes e de restaurantes. Sofrem também a violência da desigualdade social brasileira ao realizarem entregas em condomínios de alto luxo nas grandes cidades do país, em troca de remunerações muito baixas.
Nos comentários, os entregadores relatam suas experiências ao entregar em locais luxuosos: “Sou assim também. Vejo as famílias lá naquelas casas gigantes, vivendo bem, e eu na luta por causa de 7 reais.”
“Fui em um condomínio assim, Mansões (Rio de Janeiro), a molecada andando de buggy, quadriciclo, eu tive que desviar de um cisne, cara. Garagens com 2 buggys, 1 quadriciclo e 4 carrões, era outra dimensão. Nunca tinha visto aquilo, eu cheio de problemas. Eu não aguentei e chorei.”, outro espondeu.
Promessa de autonomia
Mas o que leva esses indivíduos, majoritariamente homens jovens, a se dedicarem a essa ocupação mal remunerada e repleta de riscos? A falta de melhores oportunidades de trabalho é, provavelmente, a principal causa. Mas também se observou que muitos preferem trabalhar em entregas a ter empregos formais.
A defesa desse regime de trabalho informal gira em torno da suposta autonomia que ele proporciona, ao permitir flexibilidade no horário de trabalho. A ausência de legislação trabalhista chega a ser vista como vantajosa, pois é a prova de que “não há patrão”.
No entanto, a análise indica que essa autonomia é ilusória. Em muitos depoimentos, é notório que o trabalho é intensamente controlado pelas plataformas. Embora as empresas se apresentem como meras intermediadoras de tecnologia, o cotidiano dos entregadores revela que estas monitoram continuamente o tempo de uso, o deslocamento, a produtividade e o comportamento dos trabalhadores.
Ferramentas de pontuação, alertas de rota, avaliações reputacionais e bloqueios automáticos são constantes. Mesmo sem supervisão presencial, as plataformas conseguem controlar a dinâmica do trabalho em tempo real. Na prática, o entregador tem pouca autonomia sobre a própria renda. É o algoritmo que define a quantidade de pedidos recebidos, os trajetos disponíveis e os valores cobrados por corrida.
As dificuldades começam antes mesmo da primeira entrega. Segundo os relatos, muitos esperam meses para obter aprovação nas plataformas. Em alguns casos, a espera pode chegar a dois anos, o que põe em xeque a ideia de que é fácil virar entregador.
Os pesquisadores também observaram que muitos entregadores percebem seu trabalho como fortemente condicionado pela assimetria de informação. Eles consideram que as decisões são tomadas de forma automática e pouco transparente, inclusive quanto aos repasses das taxas pagas pelos clientes e pelos restaurantes parceiros. Esse é um dos epicentros da regulamentação do serviço.
Vozes que precisam ser ouvidas
Enquanto as plataformas de entrega expandem sua presença nas cidades brasileiras, cresce também a urgência quanto à regulação profissional e aos direitos trabalhistas dessa categoria. No centro da discussão estão trabalhadores que passam horas pedalando ou pilotando motos para manter a operação de um serviço cada vez mais essencial na rotina urbana.
A pesquisa mostrou que os entregadores não são apenas indivíduos isolados conectados a aplicativos. São também trabalhadores que formam redes de apoio e desenvolvem interpretações coletivas sobre o próprio trabalho. Assim, buscam formas de resistência em um mundo cada vez mais precarizado pela mediação dos meios digitais.
Ana Heloísa Lemos recebe financiamento do CNPq e da FAPERJ para realizar pesquisas científicas.
Fernando Pereira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Por Ana Heloísa da Costa Lemos, Professora Associada do Departamento de Administração, PUC-Rio. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.