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Michel Foucault, cem anos depois: pensar o presente a partir do Rio de Janeiro

Como se formam as verdades que organizam uma sociedade? De que maneira instituições, saberes e práticas passam a definir o que somos e como devemos nos comportar? Essas são algumas das perguntas que fazem da obra de Michel Foucault uma referência que continua provocando as ciênci

01 de Setembro de 2026, 13:21 · Senda Sferco, Doutora em Ciências Sociais, Universidad de Buenos Aires · 6 min de leitura
Michel Foucault, cem anos depois: pensar o presente a partir do Rio de Janeiro

Como se formam as verdades que organizam uma sociedade? De que maneira instituições, saberes e práticas passam a definir o que somos e como devemos nos comportar? Essas são algumas das perguntas que fazem da obra de Michel Foucault uma referência que continua provocando as ciências humanas décadas depois de sua morte.

É a partir dessas questões que pesquisadores de diferentes países estão reunidos no Rio de Janeiro para revisitar a obra do filósofo francês. Entre 31 de agosto e 2 de setembro, o Colóquio Internacional Sujeito, poder e desejo. Qual é a ironia do dispositivo hoje? discutirá as relações entre sujeito, poder e desejo no presente. Na sequência, nos dias 3 e 4 de setembro, o filósofo Orazio Irrera ministrará o curso A filosofia e a etnologia da nossa cultura (vinculado ao PPGCOM/ECO/UFRJ), gratuito, em francês, dedicado às relações entre filosofia, etnologia e ciências humanas na formação do pensamento foucaultiano. Orazio Irrera é professor e pesquisador da Université Paris 8 e do GRAF (Groupe de Recherche sur les Archives Foucaldiennes).

A atividade é significativa porque Irrera investiga um momento decisivo da formação do pensamento de Foucault: a relação entre filosofia, etnografia e ciências humanas nos anos 1960. O curso parte da tensão entre Sartre, Merleau-Ponty e Lévi-Strauss até chegar às obras As palavras e as coisas e o ainda pouco conhecido Le Discours philosophique, publicado recentemente. Além disso, recupera materiais do curso ministrado por Foucault em Túnis em 1966-1967, editado por Irrera e Daniele Lorenzini, cuja publicação pela Gallimard está prevista para este ano.

Não se trata de celebrar um filósofo-monumento, mas de repetir o gesto de sua própria filosofia: usar o pensamento para interrogar aquilo que, no presente, parece evidente demais para ser questionado.

Por que Foucault ainda importa?

Nascido em Poitiers em 1926 e morto em Paris em 1984, Foucault atravessou a filosofia, a história e a psiquiatria. Livros como História da loucura, As palavras e as coisas, Vigiar e punir e História da sexualidade transformaram a maneira como pensamos instituições, saberes e formas de governo.

Talvez o mais importante de seu legado não seja uma teoria acabada, mas um conjunto de ferramentas para produzir distância em relação ao presente. Em vez de perguntar “o que é o poder?”, ele perguntava como determinadas relações de poder passaram a funcionar dessa maneira, como certas condutas se tornaram objeto de conhecimento. O que hoje parece natural — uma classificação médica, uma forma de organizar uma prisão, uma concepção de sujeito — possui uma história. E, se possui uma história, poderia ter sido diferente. É nesse sentido que Foucault falava em arqueologia e genealogia: reconstruir as condições que tornaram possível determinada maneira de pensar, sentir e agir.

Uma recepção latino-americana marcada pela urgência

Essa maneira de pensar ajuda a entender por que Foucault teve recepção tão intensa na América Latina. Seus textos circularam amplamente nos anos 1970, quando a região vivia sob ditaduras militares, censura e violência estatal, enquanto universidades e movimentos sociais discutiam marxismo, psicanálise e novas formas de intervenção política. No Brasil, em 1973, no Rio de Janeiro, Foucault pronunciou na PUC-Rio as conferências publicadas como A verdade e as formas jurídicas, nas quais já aparecia uma questão central em sua obra: como práticas sociais concretas produzem novos saberes e novas formas de verdade.

Lido em diálogo e tensão com o marxismo, a psicanálise e o estruturalismo, Foucault tornou-se, para muitos pesquisadores latino-americanos, uma “caixa de ferramentas” — expressão importante, pois uma ferramenta não é uma doutrina: serve para trabalhar sobre um problema concreto.

O poder também produz

Uma das maiores contribuições de Foucault foi mostrar que o poder não é apenas aquilo que proíbe. Estamos habituados a imaginá-lo como algo que alguém possui e exerce sobre outra pessoa — o Estado que proíbe, a lei que pune. Foucault mostra que essas formas não esgotam a questão: o poder também produz saberes, classificações, instituições e formas de relação consigo mesmo, como aparece em Vigiar e punir, na figura do panóptico de Jeremy Bentham, cujo funcionamento não depende de vigilância permanente, mas da simples possibilidade de ser observado. Isso não significa que “o poder entra em nós”: para Foucault, ele existe em relações que podem ser modificadas — onde há relações de poder, há também possibilidades de resistência.

A sexualidade e a verdade sobre nós mesmos

Esse problema ganha dimensão complexa na obra História da sexualidade 1: A vontade de saber (que este ano também completa 50 anos). Foucault questiona a “hipótese repressiva” — a ideia de que a modernidade teria simplesmente proibido o sexo. O que ele encontra é quase o contrário: o Ocidente produziu uma quantidade extraordinária de discursos sobre a sexualidade, tornando-a uma via privilegiada para produzir uma verdade sobre o sujeito. A questão não é descobrir qual é nossa verdadeira sexualidade, mas como chegamos a nos reconhecer por meio de uma determinada verdade sobre ela — e, se é possível cartografar essa condição, também é possível transformá-la.

Uma visita ao passado para pensar o presente

O curso de Irrera não parte dos problemas das plataformas digitais: retorna aos debates dos anos 1950 e 1960 entre Sartre, Merleau-Ponty, Lévi-Strauss e Foucault para reconstruir uma questão decisiva — como uma cultura pode interrogar a si mesma sem tomar seus próprios critérios como universais? O percurso passa pela universalidade sartriana da condição humana, pela noção merleau-pontiana de “universal lateral” e pela crítica de Lévi-Strauss à filosofia da história, até a exigência foucaultiana de uma etnografia da nossa cultura — aprender a olhar o que nos é mais próximo como se fosse estranho. É esse gesto que torna Foucault tão contemporâneo.

Fazer funcionar suas ferramentas, não repetir suas respostas

Talvez seja esse o melhor modo de comemorar cem anos de seu nascimento: não procurar em seus livros respostas prontas para as redes sociais ou a inteligência artificial, o que transformaria sua obra naquilo que ela nunca quis ser, um sistema fechado. A questão é outra: que ferramentas foucaultianas ainda nos permitem ver aquilo que o presente torna difícil enxergar? Hoje vivemos em sociedades nas quais nossas ações produzem dados, os dados produzem perfis, e os perfis alimentam previsões que orientam intervenções sobre nossas próprias possibilidades de ação — o que não significa um poder absoluto, mas exige compreender as novas relações de força que estão se formando.

É nesse ponto que a pergunta que orienta os encontros do Rio ganha toda a sua força: qual é a ironia do dispositivo hoje? Talvez esteja no fato de que, quanto mais os sistemas parecem conhecer nossas singularidades, mais precisamos perguntar o que fica de fora de suas classificações.

Foucault morreu há mais de quarenta anos e não conheceu nosso mundo digital. Mas deixou uma exigência que continua viva: não aceitar como natural aquilo que uma história de relações de saber e poder tornou possível — e, portanto, ainda podemos nos tornar outros.

Senda Sferco não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Por Senda Sferco, Doutora em Ciências Sociais, Universidad de Buenos Aires. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.

Fonte: https://theconversation.com/michel-foucault-cem-anos-depois-pensar-o-presente-a-partir-do-rio-de-janeiro-290922

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