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História do agronegócio: como o avanço da soja alimentou conflitos por terras no Brasil

O Brasil é o maior exportador de soja do mundo, e o agronegócio é um dos pilares da nossa economia. As pessoas costumam falar do crescimento econômico. Falam também dos danos ao meio ambiente. Mas quase ninguém fala de um efeito importante: a soja mudou o perfil de quem tem terra

09 de Outubro de 2026, 06:40 · Michele Rosenberg, Assistant Professor of Economics, University of Essex · 4 min de leitura
História do agronegócio: como o avanço da soja alimentou conflitos por terras no Brasil

O Brasil é o maior exportador de soja do mundo, e o agronegócio é um dos pilares da nossa economia. As pessoas costumam falar do crescimento econômico. Falam também dos danos ao meio ambiente. Mas quase ninguém fala de um efeito importante: a soja mudou o perfil de quem tem terra no Brasil, e ajudou a criar conflitos no campo.

Outros estudos já mostraram algo parecido. Na Colômbia, em 2013, Dube e Vargas estudaram os preços das commodities e viram que eles pioraram o conflito civil no país.

Em uma pesquisa publicada no Journal of Development Economics, encontramos algo parecido no Brasil: as grandes fazendas de soja ajudam a explicar onde, e quando, as ocupações de terra aconteceram.

A terra no Brasil é muito mal dividida. Em 2006, fazendas com mais de mil hectares eram só 1% do total, mas ocupavam quase metade de toda a terra agrícola do país.

Desde os anos 1950 existem movimentos contra essa desigualdade. O mais conhecido é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que ocupa fazendas que, pela Constituição, não cumprem sua função social.

Entre 1988 e 2014, 1,3 milhão de famílias participaram de ocupações de terra, em mais de 9 mil ocupações registradas. Quase 1.700 pessoas morreram em conflitos de terra na mesma época.

O que mudou nos anos 1990? Duas coisas aconteceram quase ao mesmo tempo.

Em 1995 e 1996, o Brasil abriu sua economia. As novas leis atraíram investimento estrangeiro para a agricultura e reduziram os custos de exportação.

Em 1996 chegou ao mercado uma nova soja transgênica, que resistia a herbicidas e precisava de menos trabalhadores. Bustos, Caprettini e Ponticelli (2016) mostraram que essa mudança levou trabalhadores rurais para as cidades.

Juntas, essas duas mudanças tornaram a soja muito mais lucrativa. Mas o lucro variava muito entre os municípios, dependendo do solo e do clima de cada lugar.

Usamos essa diferença entre municípios para estudar o problema: comparamos lugares com mais e menos chance de lucro com soja, e assim vimos o efeito real da soja sobre os conflitos.

O resultado principal é claro. Nos municípios onde a soja deu mais lucro, as ocupações de terra aumentaram muito depois de 1996 — de 54% a 110%, comparado à média.

Antes da reforma não havia essa diferença entre os municípios, o que mostra que o efeito veio mesmo da soja.

Em 2010, Hidalgo, Naidu, Nichter e Richardson encontraram um resultado parecido, estudando como a chuva afeta as ocupações de terra. A diferença é que, no nosso caso, o efeito da soja não passa.

Por que a soja gera mais conflito, e não menos?

Essa ligação entre terra e conflito já foi vista em outros lugares. Berman, Couttenier e Soubeyran estudaram esse tema na África em 2021 e mostraram que a fertilidade da terra afeta o risco de conflito.

Em 2011, Esteban e Ray explicaram essa ideia em teoria: a desigualdade gera conflito, e isso acontece mais quando existe um alvo claro para a revolta.

No Brasil, os grandes latifúndios de soja viraram esse alvo.

O padrão não é novo. Num contexto histórico bem diferente, Caprettini e Voth estudaram em 2020 a Inglaterra do século 19, onde as máquinas de debulha tiraram empregos e os trabalhadores se revoltaram. O mesmo aconteceu com a soja no Brasil, dois séculos depois.

Encontramos duas explicações para esse efeito: uma tem a ver com o acesso à terra, a outra com o trabalho no campo.

As grandes fazendas cresceram sobre pastos, florestas e terras usadas de forma informal por comunidades tradicionais, e essas famílias perderam o acesso à terra.

As fazendas de soja usam máquinas, não pessoas, e por isso seu crescimento reduziu os empregos no campo. Menos empregos significam mais gente sem terra e sem trabalho.

As ocupações organizadas por movimentos sociais cresceram mais do que as espontâneas, sobretudo em municípios com terra muito concentrada e onde havia mais apoio a partidos de esquerda.

Nas terras indígenas o padrão foi o mesmo: as ocupações aconteceram só onde a soja avançou sobre esse território, o que mostra que a causa é a perda de terra, não o desejo de lucro.

Esse resultado incomoda. Um dos maiores sucessos econômicos do Brasil trouxe um efeito colateral que piorou um dos conflitos sociais mais antigos do país.

Isso não é um argumento contra o agronegócio, mas um alerta: mudanças econômicas rápidas, sem proteção para os mais vulneráveis, têm custos sociais.

Esses custos não aparecem nos números de exportação, nem na riqueza total do país. Mas são reais, e afetam milhares de famílias.

Stefano Falcone recebe financiamento da União Europeia, através de uma bolsa Marie Skłodowska-Curie (MSCA).

Michele Rosenberg não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Por Michele Rosenberg, Assistant Professor of Economics, University of Essex. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.

Fonte: https://theconversation.com/historia-do-agronegocio-como-o-avanco-da-soja-alimentou-conflitos-por-terras-no-brasil-293268

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