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Guerra de tarifas: Brasil teria mais a perder que os Estados Unidos

Desde 22 de julho, boa parte dos produtos brasileiros que chegam aos Estados Unidos passou a pagar umatarifa extra de 25%. Alista de exceçõesacabou maior do que muitos esperavam, comprazos de entrada em vigorbem definidos. Café, carne bovina, suco de laranja, petróleo, aviões, co

29 de Julho de 2026, 02:48 · Armando Alvares Garcia Júnior, Profesor de Derecho Internacional y de Relaciones Internacionales, UNIR - Universidad Int · 4 min de leitura
Guerra de tarifas: Brasil teria mais a perder que os Estados Unidos

Desde 22 de julho, boa parte dos produtos brasileiros que chegam aos Estados Unidos passou a pagar uma tarifa extra de 25%. A lista de exceções acabou maior do que muitos esperavam, com prazos de entrada em vigor bem definidos. Café, carne bovina, suco de laranja, petróleo, aviões, couros, produtos de madeira e remédios ficaram de fora, num episódio que ganhou ampla repercussão internacional.

Essa tarifa não nasceu do nada. Ela é o terceiro round de uma verdadeira “novela” jurídica. Depois que a Suprema Corte americana barrou tarifas anteriores, Washington recorreu a outra base legal, desta vez ligada ao trabalho forçado, tema muito sério e preocupante, e já exposto em diversos estudos sobre geoeconomia.

No caso que nos afeta, a tarifa média efetiva sobre o Brasil chegou perto de 19%, número que, de fato, circulou tanto na imprensa americana quanto em análises independentes que não hesitaram em chamar o episódio de “presente eleitoral” para Lula.

Amplo impacto

Na prática, o impacto alcança diversos setores e famílias. Madeira, móveis, calçados, máquinas, equipamentos elétricos, cerâmica e açúcar concentram muitos empregos. Estudos sobre a estrutura produtiva do país ajudam a entender por que esses setores são tão sensíveis a choques externos.

Diante do evidente risco, o vice-presidente Geraldo Alckmin resumiu o grande dilema diplomático brasileiro: aplicar o “olho por olho, dente por dente” (a lógica da reciprocidade) pode cegar ambos os lados. E é evidente que o Brasil teria muito mais a perder que os Estados Unidos.

Diante do evidente risco, o vice-presidente Geraldo Alckmin resumiu o grande dilema diplomático brasileiro: aplicar o “olho por olho, dente por dente” (a lógica da reciprocidade) pode cegar ambos os lados. E é evidente que o Brasil teria muito mais a perder que os Estados Unidos.

Poucos dias depois, uma nova sobretaxa, incidindo agora sobre um campo convergente, o das supostas falhas no combate ao trabalho forçado, passou a valer para 60 países, incluindo o Brasil, com alíquotas variáveis segundo o país. O governo brasileiro reagiu de imediato - chamando a medida de arbitrária - e Lula da Silva prometeu uma enérgica resposta à imposição.

Quando as duas tarifas se somam, a conta chega a 37,5% sobre um mesmo produto, atingindo cerca de 16,5% de tudo que o Brasil vende aos Estados Unidos. No total, as duas medidas afetam algo em torno de 23% das exportações brasileiras, enquanto mais da metade do comércio bilateral segue livre de qualquer tarifa adicional.

Opção pela cautela diplomática

Diante disso, o governo brasileiro decidiu recorrer à Organização Mundial do Comércio, formalizando um pedido de consultas contra os Estados Unidos. Esse tipo de resposta institucional tem raízes profundas na tradição diplomática brasileira. Enquanto isso, a lei de reciprocidade, que permitiria tarifas equivalentes contra produtos norte-americanos, segue guardada, sem previsão de uso antes das eleições de outubro.

Lula reforçou essa postura num artigo recentemente publicado, chamando as tarifas de “erro estratégico”. O governo também ampliou um programa de crédito para empresas afetadas, combinação de diplomacia e apoio financeiro que alguns autores já analisam como parte integrante da nova geoeconomia.

No fundo, essa cautela reflete duas lógicas que se cruzam: uma geopolítica, sobre quem impõe regras, e outra geoeconômica, que usa tarifas e sistemas de pagamento como armas. Vale lembrar que os Estados Unidos já não são o principal comprador dos produtos brasileiros: essa posição pertence à China há anos.

Com relação ao último ponto - o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, alvo direto da irritação dos EUA - temos algo que comentar. Como se sabe, para o governo brasileiro, mexer nesse sistema está fora de cogitação. Tudo isso ocorre a poucos meses de uma eleição decisiva, e uma pesquisa amplamente divulgada mostrou que mais da metade dos brasileiros associa o tarifaço à visita do senador Flávio Bolsonaro a Washington, episódio ligado ao processo que levou seu pai, Jair Bolsonaro, a uma condenação por tentativa de golpe de Estado.

Para os leitores curiosos, o quadro pode ser acompanhado tanto nas páginas oficiais do governo americano quanto nas atualizações do governo brasileiro. A lição que fica é simples: responder tarifa com tarifa pode encarecer preços em casa e isolar quem revida. Calcular o prejuízo real, proteger quem produz, defender ativos estratégicos como o sistema de pagamentos nacional e recorrer aos foros internacionais parece o caminho mais seguro. O teste será saber se essa cautela continua sendo estratégia, ou se vira silêncio diante da próxima pressão.

Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Por Armando Alvares Garcia Júnior, Profesor de Derecho Internacional y de Relaciones Internacionales, UNIR - Universidad Int. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.

Fonte: https://theconversation.com/guerra-de-tarifas-brasil-teria-mais-a-perder-que-os-estados-unidos-288592

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