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‘Feminina sim, feminista não’: a estratégia da extrema-direita para tentar ganhar o voto feminino

Quase um século depois da conquista do voto feminino no Brasil (garantido em 1932 e incorporado à Constituição de 1934), os direitos políticos das mulheres continuam atravessados por disputas sobre o lugar e os direitos delas na sociedade. O tema ganha ainda mais intensidade no p

18 de Maio de 2026, 09:40 · Priscila Silvério, Comunicadora pós-graduada em Mídia e Política, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo · 7 min de leitura

Quase um século depois da conquista do voto feminino no Brasil (garantido em 1932 e incorporado à Constituição de 1934), os direitos políticos das mulheres continuam atravessados por disputas sobre o lugar e os direitos delas na sociedade. O tema ganha ainda mais intensidade no período que antecede as eleições.

Se antes o objetivo era restringir a participação das mulheres para manter o poder de determinadas elites e a política sob controle masculino, com o voto feminino a disputa passou a ocorrer em torno da capacidade de organizar e direcionar esse eleitorado. O voto deixou de ser apenas um instrumento de participação democrática e passou também a funcionar como ferramenta de manutenção ou transformação do status social vigente.

Ao longo desse período, a própria democracia esteve sob ataque. Períodos de autoritarismo como o Estado Novo(1937-1945) e a ditadura civil-militar (1964-1985) restringiram direitos políticos, enfraqueceram espaços de participação social e interromperam processos democráticos mais amplos. Tanto o impedimento quanto a mobilização do voto feminino sempre estiveram no centro de disputas políticas.

Hoje, a disputa em torno do voto feminino ocorre em outras bases. Em um cenário de reorganização do conservadorismo e da extrema-direita, as mulheres se tornaram peças centrais de estratégias políticas que disputam não apenas votos, mas valores e modelos de sociedade.

Disputa ideológica

As mulheres representam o maior contingente eleitoral do país e ocupam posição central na reprodução da vida social (conceito das ciências sociais que se refere às atividades necessárias para sustentar o cotidiano e o funcionamento da sociedade). Nos dias atuais, debates sobre maternidade, trabalho doméstico, cuidado, feminismo, religião e papéis de gênero ocupam o centro dessa disputa ideológica pelo voto feminino.

Compreender o comportamento eleitoral das mulheres exige olhar para diferentes dimensões da vida social. Afinal, o voto não é resultado apenas de preferências individuais ou do impacto imediato das campanhas eleitorais. Ele é influenciado por fatores diversos, que se combinam de maneiras distintas conforme o contexto social, econômico e cultural. Um dos mais conhecidos é o chamado voto econômico: a tendência de apoiar governantes ou grupos políticos associados a alguma melhora concreta nas condições de vida, seja em renda, emprego, acesso a serviços públicos ou estabilidade econômica.

Essa lógica ajuda a explicar por que políticas públicas, programas sociais, inflação, custo de vida e condições de trabalho costumam ter impacto importante sobre o eleitorado feminino, especialmente entre mulheres responsáveis pelo cuidado cotidiano da família e pela organização da vida doméstica.

O voto também é moldado pelas condições materiais de existência, por experiências acumuladas no cotidiano e a partir do processo de socialização e de construção ideológica pelo qual passamos ao longo da vida. Nossas escolhas políticas são influenciadas pelos ambientes em que vivemos e pelas relações que construímos. Da formação familiar e das escolas que frequentamos aos grupos de amigos, locais de trabalho, organizações políticas e movimentos sociais de que participamos, toda essa trajetória ajuda a moldar como enxergamos o mundo — e, consequentemente, como votamos.

A nossa posição em uma determinada sociedade — definida por fatores como renda, profissão, idade e gênero — também pode influenciar o comportamento eleitoral. Sem descartar as demais explicações, fato é que a estratificação do contingente eleitoral e a formulação de estratégias de convencimento se tornam cada vez mais fundamentais em sociedades complexas e heterogêneas.

De um lado, temos o trabalho produtivo, realizado fora de casa, na produção de mercadorias, na prestação de serviços, na geração de lucro e também na manutenção de políticas públicas como educação e saúde. De outro, existe o trabalho reprodutivo, quase sempre invisível e não remunerado, mas essencial para sustentar a vida social. Ele inclui os cuidados com filhos, idosos, pessoas adoecidas, alimentação, limpeza, gestão da casa e organização da vida familiar — tarefas historicamente atribuídas às mulheres.

A forma como esse cotidiano é organizado se tornou um dos principais campos de disputa do conservadorismo de extrema-direita. O que está em jogo é uma ideologia que reafirma a permanência dos trabalhos invisíveis e de cuidado como responsabilidade prioritária das mulheres, enquanto os homens permanecem livres e donos do seu tempo não apenas para o exercício do trabalho remunerado, mas também para a atividade política.

Feminino vs. feminismo

Nos últimos anos, tivemos a ascensão de mulheres de direita ou extrema-direita ao poder, afeitas à ideologia patriarcal de separação entre o que é para ser feito por mulheres e por homens. Não foi por acaso. Houve planejamento e estratégia para que figuras como Damares Alves, Janaina Paschoal, Bia Kicis, Júlia Zanatta e Carla Zambelli (esta presa na Itália desde julho de 2025) ganhassem tração e relevância no panorama nacional. Para 2026, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis já se lançaram na disputa por uma vaga no Senado, pelo Distrito Federal.

Michelle também é mencionada na disputa presidencial e é uma das figuras centrais na defesa de uma “política feminina” em contraposição à “política feminista”. Em seus discursos, a ex-primeira dama reforça a ideia de uma submissão “saudável”, o que soa contraditório, onde a casa e a vida dos maridos e filhos são prioridade, mesmo que ela tenha uma vida “lá fora”.

A candidata afirma que “existe um contexto na palavra de Deus sobre a mulher ser submissa ao seu esposo. (…) É sobre caminhar lado a lado com nossos esposos, parlamentares, mandatários, líderes. E a gente se complementa na política partidária. Aqui, o nosso trabalho, a renúncia de estar longe de casa, não ausente — porque tem uma diferença —, o longe é viajar e sua casa estar totalmente controlada. É deixar a comidinha do marido, das filhas (…) A mulher fazer uma comidinha gostosa para o marido, cuidar da casa, isso não te menospreza como mulher.”

Na visão de Michelle e seu grupo, as mulheres estão aqui para colaborar e não serem protagonistas. A premissa é que as mulheres vão trabalhar, sim, mas antes precisam pôr a comida na mesa e deixar a casa em ordem. Nesse modelo, a sobrecarga de tarefas permanece concentrada principalmente nas mulheres. É uma retórica que não questiona as desigualdades e padrões patriarcais, mas antes garante a sua manutenção.

Esse discurso, na prática, ecoa e reverbera em movimentos como o das tradwives (esposas tradicionais), que romantizam a estética dos anos 50 e defendem a submissão feminina ao patriarcado como estilo de vida.

Direitos fundamentais seguem em disputa

Para entender o alcance desse fenômeno no mundo digital, uma busca pelos próprios mecanismos de pesquisa das plataformas mostra que a hashtag #tradwife já reúne mais de 70 mil publicações. No Instagram, são mais de 120 mil resultados e a ideia de ‘servir à família’ se torna produto político e renda para influenciadoras que dão rosto às “novas mulheres” de direita e de extrema-direita.

Para além do discurso político, existe uma estratégia financeira agressiva. O Partido Liberal (PL) investiu um orçamento de 16,2 milhões dedicado às mulheres. Isso é o dobro do que o PT desembolsou no mesmo período. O partido também criou o “PL Mulheres” com o objetivo claro de viabilizar mais mulheres conservadoras em cargos eletivos.

A democracia pressupõe a existência de todo o espectro ideológico. De esquerda à direita, de progressistas a conservadores. O que exige atenção é que, historicamente, as mulheres foram excluídas dos espaços de decisão. As barreiras estruturais são ainda mais profundas quando falamos em mulheres negras, trans e indígenas. Apenas muito recentemente alcançamos direitos fundamentais como as cotas de gênero para ampliar candidaturas femininas, a Lei Maria da Penha, a Lei de Igualdade Salarial e, nos últimos meses, a Política Nacional de Cuidado. No geral, a Constituição e os códigos de ética são essencialmente masculinos. Por isso, nosso corpo, inteligência e autonomia vivem em disputa.

Mais do que votar em mulheres, o desafio é buscar candidaturas que acolham a pluralidade feminina com responsabilidade. Precisamos de representantes que atuem pelo direito de todas, e não apenas daquelas que se encaixam em tradições e modelos nos quais a maioria já não se reconhece ou nunca se reconheceu.

Tathiana Chicarino já recebi financiamento da Fapesp, Capes, PUC, FESP, CNPq.

Priscila Silvério não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Por Priscila Silvério, Comunicadora pós-graduada em Mídia e Política, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo . Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.

Fonte: https://theconversation.com/feminina-sim-feminista-nao-a-estrategia-da-extrema-direita-para-tentar-ganhar-o-voto-feminino-282567

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