Eleições 2026: mulheres idosas tornam-se força eleitoral emergente nas urnas
Por décadas, a resposta automática da ciência política e do marketing eleitoral apontava para os jovens. No entanto, as urnas estão revelando uma transformação profunda: o futuro das nossas democracias passa, de forma inédita e irreversível, pela voz e pelo voto da população idos
Por décadas, a resposta automática da ciência política e do marketing eleitoral apontava para os jovens. No entanto, as urnas estão revelando uma transformação profunda: o futuro das nossas democracias passa, de forma inédita e irreversível, pela voz e pelo voto da população idosa, com destaque absoluto para as mulheres.
A América Latina atravessa uma transição demográfica acelerada. Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) confirmam que a região envelhece em ritmo significativamente mais veloz do que o observado historicamente no Norte Global. Se antes o envelhecimento populacional era tratado como uma projeção estatística distante, hoje ele se impõe como uma força política e social imediata. Esse fenômeno adquire centralidade crítica no Brasil, onde a participação dos eleitores maduros deixou de ser coadjuvante para se tornar o verdadeiro fiel da balança eleitoral.
Abstenção entre os mais jovens
Enquanto os índices de abstenção tendem a crescer entre os segmentos mais jovens, a população idosa dá demonstrações consistentes de disciplina cidadã. No Brasil, estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam o crescimento sustentado do eleitorado com mais de 60 anos, que já ultrapassa 15% do total de inscritos, marca que se amplia ainda mais quando observamos o avanço expressivo da chamada quarta idade, composta por pessoas com 80 anos ou mais.
Essa virada quantitativa vem acompanhada de uma revolução qualitativa. Ainda que sejam necessários mais estudos empíricos sobre o comportamento eleitoral deste segmento, podemos notar que o eleitorado maduro não compõe um bloco homogêneo, nem vota por mera inércia conservadora.
Se trata de um eleitorado altamente consciente de suas demandas por saúde, renda e proteção social, que avalia o discurso dos candidatos a partir de respostas concretas para as suas demandas, mas também é influenciado significativamente pelas lideranças religiosas. Por estarem etariamente mais próximas da última fronteira natural que como espécie não conseguimos domesticar - a morte -, a religiosidade das pessoas idosas tende a aumentar.
Feminização da velhice
Ao observar a composição do eleitorado idoso, sobressai um traço estrutural: a feminização da velhice. Como a expectativa de vida das mulheres é maior, elas são maioria absoluta na faixa de 60 anos ou mais em toda a América Latina e no Brasil. Esse predomínio numérico se traduz em um protagonismo político sem precedentes.
As mulheres idosas representam uma força eleitoral decisiva, cujo posicionamento não aceita mais ser invisibilizado ou reduzido a paliativos assistenciais. E é precisamente a questão do cuidado o vetor que atravessa de ponta a ponta as experiências, as dificuldades e as exigências desse eleitorado.
O atendimento a essa demanda exige compreender a dupla dimensão em que o trabalho de cuidado impacta a vida das mulheres. Em primeiro lugar, como provedoras históricas de cuidado: ao longo de toda a vida - e frequentemente continuando na velhice -, as mulheres assumiram de forma não remunerada o cuidado de familiares, netos e pessoas dependentes.
Esse trabalho invisível drenou seu tempo, limitou seu acesso à educação formal e comprometeu sua inserção no mercado de trabalho regulamentado, resultando em desproteção previdenciária e vulnerabilidade econômica na fase avançada da vida.
Em segundo lugar, surgem como sujeitos com direito inequívoco a receber cuidado: ao envelhecerem, essas mesmas mulheres necessitam de infraestrutura pública adequada, serviços de saúde integrados e redes de apoio comunitário que assegurem sua autonomia, saúde e dignidade.
Responder a esse protagonismo eleitoral exige uma mudança de paradigma: o cuidado precisa deixar de ser visto como um problema privado das mulheres para ser tratado como um direito universal, um assunto político prioritário e um dever estrutural do Estado.
A aprovação da lei que estabelece a Política Nacional de Cuidados no Brasil, em dezembro de 2024, representa um marco normativo promissor nessa direção. No entanto, a implementação eficaz dessa política corre riscos permanentes diante da alternância ideológica pendular dos governos- situação generalizada na região- e da fragilidade orçamentária.
Nas disputas eleitorais, as plataformas partidárias precisam ir além de promessas genéricas e apresentar propostas para fortalecer a infraestrutura pública do cuidado. Isso exige investimentos em redes estatais e comunitárias qualificadas para atender pessoas idosas em situação de dependência e aliviar a sobrecarga que historicamente recai sobre as mulheres no âmbito familiar, inclusive sobre aquelas que já são idosas. O setor privado, o maior beneficiado economicamente do envelhecimento populacional, deve ser convocado a contribuir solidariamente como parte de sua responsabilidade social.
Valorização da economia do cuidado
Por fim, torna-se indispensável o reconhecimento e a valorização da economia do cuidado, com a formulação de políticas de cuidado, qualificação e proteção social para as trabalhadoras formais e informais que dedicam a vida a cuidar e chegam a essas idades avançadas com vulnerabilidades multidimensionais significativas. Exige também o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), com a expansão da atenção gerontológica especializada, garantia de fornecimento contínuo de medicamentos e integração dos cuidados sanitários prolongados à atenção primária.
Para além da caricatura da “tia do Zap” é preciso desenvolver mais pesquisa na ciência política e na sociologia para compreender a idosa enquanto sujeito político relevante, atravessada pelas suas interseccionalidades de raça, classe, território e dinâmicas de acesso e provisão de cuidados, reconhecendo que a experiência do envelhecimento feminino é diversa, mas determinante para o futuro das nossas democracias e sociedades na região porque seu protagonismo eleitoral e demográfico só crescem.
O debate público na América Latina necessita urgentemente renovar suas lentes. O envelhecimento demográfico não deve ser tratado como um problema em si, mas reconhecido, antes de tudo, como uma conquista política, econômica, social e cultural. Apesar da persistência de profundas desigualdades estruturais, muito mais pessoas chegam hoje à velhice do que em períodos históricos anteriores.
O crescimento do eleitorado com mais de 60 anos - e, em especial, a força política das mulheres idosas - exige mais estudos empíricos por parte da comunidade científica e-sobretudo- compromissos concretos nos programas partidários. Ignorar a voz da maturidade já não é apenas um erro analítico: é um equívoco eleitoral estratégico.
Silvia Lilian Ferro não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Por Silvia Lilian Ferro, Associate professor, Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA); Associação Brasil. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.