Desinformação sobre vacinas de mRNA pode atrapalhar desenvolvimento de tratamentos revolucionários contra o câncer
Pela primeira vez, umavacina contra o câncer baseada em RNA mensageiro (mRNA)obteve sucesso em uma fase avançada de ensaios clínicos, um desenvolvimento significativo que pode revolucionar a forma como o câncer é tratado. Em 19 de agosto de 2026, as empresas farmacêuticas Moderna
Pela primeira vez, uma vacina contra o câncer baseada em RNA mensageiro (mRNA) obteve sucesso em uma fase avançada de ensaios clínicos, um desenvolvimento significativo que pode revolucionar a forma como o câncer é tratado. Em 19 de agosto de 2026, as empresas farmacêuticas Moderna e Merck anunciaram que sua vacina personalizada, a intismeran autogene, conseguiu reduzir a recorrência do melanoma, um tipo de câncer de pele quando combinada com o medicamento de imunoterapia Keytruda. Embora esses resultados possam abrir caminho para uma onda de vacinas contra o câncer, a desinformação sobre a plataforma de mRNA que circula desde a pandemia da COVID-19 pode minar esse impulso antes que elas cheguem aos pacientes.
O avanço em direção às vacinas para tratar o câncer vem se consolidando há anos. Desde o início dos anos 2000, mais de 120 ensaios clínicos promissores testaram o uso de vacinas de mRNA para tratar diversos tipos de câncer, como o melanoma, câncer no cérebro, mama , pulmão e próstata.
Ao mesmo tempo, informações errôneas sobre o chamado “câncer turbo” começaram a se espalhar amplamente nas redes sociais, com veículos de comunicação noticiando pela primeira vez sobre o assunto no final de 2022. O “câncer turbo” refere-se à alegação falsa de que as vacinas de mRNA contra a COVID-19 causam cânceres excepcionalmente agressivos.
Como pesquisador na área de comunicação em saúde que monitora conversas online relacionadas ao câncer, tenho visto com que rapidez novas informações erradas ou mentirosas podem se espalhar, e o impacto que isso pode ter nas decisões das pessoas em relação à saúde. No caso das vacinas de mRNA contra o câncer, essa narrativa falsa poderia prejudicar a confiança do público em uma ferramenta importante para ajudar a prevenir ou tratar o câncer no futuro.
Pesquisa sobre o câncer e vacinas de mRNA
A maioria das pessoas provavelmente ouviu falar pela primeira vez sobre mRNA por meio das vacinas contra a COVID-19, mas os cientistas vêm estudando esta plataforma há décadas.
O funcionamento das vacinas de mRNA consiste em fornecer instruções para células do corpo produzirem proteínas específicas. Esse processo ensina o sistema imune a reconhecer e atacar essas proteínas. Na pesquisa sobre o câncer, os cientistas podem desenvolver vacinas altamente direcionadas que treinam o sistema imune a identificar células tumorais e eliminá-las de forma mais eficaz, sem prejudicar as células saudáveis.
Um exemplo desse potencial vem de estudos sobre o glioblastoma, um tumor cerebral agressivo para o qual existem poucos tratamentos eficazes. Pesquisadores descobriram que uma vacina de mRNA personalizada pode ativar rapidamente o sistema imune das pessoas para atacar esse tipo de câncer cerebral e melhorar sua sobrevida.
O conjunto de evidências de que as vacinas de mRNA podem transformar a forma como os pesquisadores utilizam o sistema imune para tratar o câncer está crescendo. Mas mesmo os avanços médicos mais promissores só podem melhorar a saúde das pessoas se elas estiverem dispostas a utilizá-los.
A ascensão da narrativa do “câncer turbo”
“Câncer turbo” é um termo frequentemente usado por ativistas antivacina para afirmar — sem evidências confiáveis — que as vacinas de mRNA contra a COVID-19 estariam causando cânceres excepcionalmente agressivos.
Essa falsa narrativa se infiltrou na grande mídia. Em setembro de 2025, um controverso cardiologista do Reino Unido afirmou que a vacina contra a COVID-19 contribuiu para os recentes diagnósticos de câncer na família real, provocando uma reação imediata da comunidade médica. Embora seja incomum, algumas figuras públicas e profissionais de saúde têm afirmado que as vacinas poderiam causar câncer, apesar de amplas evidências contrárias a isso, muitas vezes por meio da interpretação errônea ou deturpação de estudos.
Desinformação sobre saúde pode ser descrita como afirmações falsas ou enganosas relacionadas à saúde compartilhadas com o público que não são respaldadas por evidências científicas, baseiam-se em relatos pessoais não verificados ou são opiniões apresentadas como fatos. Por exemplo, ao acompanhar discussões sobre a vacina contra o HPV em plataformas de mídia social, minha equipe e eu descobrimos que medos relacionados à segurança, desconfiança nas autoridades e alegações de conspiração estavam amplamente difundidos na internet.
A desinformação sobre vacinas se intensificou durante a pandemia de COVID-19, causando o que os pesquisadores chamam de uma “infodemia”: a rápida disseminação de informações sobre saúde, tanto precisas quanto falsas, durante uma crise de saúde pública.
A infodemia da COVID-19 tornou mais difícil para as pessoas encontrarem orientações confiáveis e moldou as atitudes do público em relação às vacinas.
O “câncer turbo” reflete muitos dos mesmos padrões e narrativas da infodemia da COVID-19.
Em um estudo de monitoramento de redes sociais, que envolve o acompanhamento sistemático de conversas online sobre diferentes temas, minha equipe e eu analisamos inúmeras postagens sobre o “câncer turbo” desde julho de 2023 até o início de 2026. Muitas postagens se baseiam em anedotas emocionalmente impactantes, interpretações errôneas de estudos em animais, uso indevido de relatos de eventos adversos e mitos reciclados de que as vacinas alteram o DNA humano. Algumas postagens também associam o aumento das taxas de câncer em adultos mais jovens à vacina contra a COVID-19. Grandes estudos populacionais, no entanto, não constataram aumento do risco de câncer após a vacinação.
Nenhuma dessas alegações sobre o “câncer turbo” é respaldada por evidências confiáveis. Mas nas redes sociais a repetição, as histórias pessoais e uma linguagem que soa científica podem fazer com que a desinformação pareça legítima e ajudá-la a se espalhar rapidamente.
Desinformação sobre vacinas contra o câncer prejudica a saúde pública
À primeira vista, alegações marginais como a do “câncer turbo” podem parecer fáceis de descartar. Mas pesquisas mostram que elas podem ter consequências no mundo real, e a desinformação relacionada ao câncer pode ser particularmente grave.
Informações imprecisas sobre o tratamento do câncer são comuns na internet, e pesquisadores demonstraram que isso influencia as decisões dos pacientes. Quando os pacientes recorrem a abordagens não comprovadas em vez das terapias recomendadas, seu risco de morte pode aumentar substancialmente.
Os médicos já estão observando os efeitos da desinformação no atendimento de rotina. Oncologistas relatam ter que lidar com mitos ou informações enganosas que os pacientes encontraram, embora os pesquisadores ainda não saibam quão comuns essas conversas são no tratamento do câncer.
A plataforma de mRNA está entrando em uma fase crucial de seu desenvolvimento. O progresso científico está se acelerando, mas a compreensão do público não acompanhou esse ritmo. A exposição repetida a alegações falsas pode minar a confiança na tecnologia de mRNA ao longo do tempo, aumentando a probabilidade de que alguns pacientes recusem terapias com mRNA no futuro.
Se narrativas enganosas, como a do “câncer turbo”, continuarem a se espalhar, elas poderão complicar a futura implantação das vacinas de mRNA e limitar benefícios que salvam vidas.
Comunicação em sintonia com a ciência
Uma vez que a desinformação se instala no imaginário do público, mudar esta noção pode ser difícil.
Pesquisas têm demonstrado consistentemente que uma comunicação proativa, transparente e persuasiva pode combater a desinformação. Elas também mostram que a confiança, uma vez perdida, é difícil de reconstruir.
As inovações médicas podem salvar vidas, mas só se a comunicação acompanhar esse ritmo. Isso significa monitorar tendências emergentes de desinformação nas redes sociais, abordar as preocupações desde o início, capacitar os profissionais de saúde para que tenham conversas eficazes com os pacientes e elaborar mensagens de saúde pública que promovam a compreensão do público sobre novas tecnologias médicas antes que elas sejam amplamente introduzidas na prática clínica.
A inovação científica por si só não é suficiente para melhorar a saúde. Garantir que o público possa avaliar inovações médicas, como as vacinas de mRNA contra o câncer, com base em evidências, em vez de desinformação viral, faz parte do desafio da Ciência.
O futuro dos tratamentos contra o câncer depende não apenas de descobertas científicas, mas também da compreensão e da confiança do público.
Esta é uma versão atualizada de um artigo publicado originalmente em 17 de março de 2026.
Dannell D. Boatman recebe financiamento da Merck, Sharp & Dohme LLC, do National Institutes of Health, do National Institute of General Medical Sciences e do Centers for Disease Control and Prevention.
Por Dannell D. Boatman, Assistant Professor of Cancer Prevention and Control, Health Communication Researcher, West Virginia. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.