Depois de seis meses de guerra, EUA não alcançaram vitória estratégica contra o Irã. O que acontece agora?
Quando iniciaram uma campanha militar contra o Irã, em28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel perseguiram quatro objetivos declarados por Washington: impedir que Teerã obtivesse uma arma nuclear; degradar a produção de mísseis; reduzir o apoio iraniano ao Hezbollah e ao
Quando iniciaram uma campanha militar contra o Irã, em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel perseguiram quatro objetivos declarados por Washington: impedir que Teerã obtivesse uma arma nuclear; degradar a produção de mísseis; reduzir o apoio iraniano ao Hezbollah e ao Hamas e favorecer uma mudança de regime conduzida pelos próprios iranianos.
Seis meses depois, os resultados estão muito aquém desses propósitos. Os ataques mataram o aiatolá Ali Khamenei, líder do país por 16 anos, e destruíram navios, defesas aéreas e parte da infraestrutura nuclear. Mojtaba Khamenei, seu filho e sucessor, consolidou o controle da Guarda Revolucionária sobre o Estado e preparou o país para um conflito prolongado. A via negociada permaneceu aberta, mas sob exigências maiores, o que acabou reforçando o regime que Washington pretendia enfraquecer.
No entanto, as ações dos Estados Unidos produziram um evento geoeconômico sem precedentes na história recente: o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde circulava um quinto da oferta mundial de energia. A interrupção reduziu o fluxo de petróleo, gás, nafta e fertilizantes. As exportações de gás natural caíram 95%, elevando fretes, seguros e custos ao longo de toda a cadeia produtiva.
Transcorrido meio ano, os ataques norte-americanos e israelenses planejados para enfraquecer Teerã acabaram impondo perdas a consumidores, empresas e aos próprios aliados americanos.
As lições do general Clausewitz
O general, estrategista e teórico militar prussiano Carl von Clausewitz (1780–1831), um dos pensadores mais influentes da história militar ocidental, oferece uma chave para compreender esse contraste. Trata-se do conceito de “centro de gravidade”: a principal fonte de força e coesão da qual depende a capacidade de um país sustentar uma guerra. No caso dos Estados Unidos, esse centro de gravidade combina o desempenho da economia, a confiança dos aliados e o apoio do eleitorado.
Ao bloquear o Estreito de Ormuz, Teerã atingiu essas três dimensões — a alta da gasolina, a desconfiança dos parceiros e a queda do apoio eleitoral à guerra passaram a corroer, por dentro, a base política que sustentava a liderança de Trump.
Essa estratégia se aproxima da explicação clássica de Andrew Mack (1939–2021) para as guerras assimétricas. Segundo Mack, pesquisador de relações internacionais, a disparidade de poder militar pode ser compensada pela disparidade de interesse e de tolerância ao custo do conflito.
Para Teerã, a guerra envolve a sobrevivência do regime e, portanto, é uma questão existencial. Para Washington, sua continuidade depende sobretudo de cálculos políticos e eleitorais. A estratégia do Irã seria, assim, resistir até que o desgaste causado pelo conflito — como a alta dos combustíveis e a queda da popularidade do governo — supere a disposição dos Estados Unidos de continuar lutando.
A própria mudança de discurso em Washington sustenta essa leitura. Em agosto, o vice-presidente J. D. Vance chegou a apresentar a redução dos preços de energia como “objetivo número um” do governo, à frente da própria não proliferação.
Nesse contexto, a aprovação de Trump caiu de 40% para 33%, e apenas 31% dos americanos aprovam a guerra. O galão de gasolina, que custava US$ 2,98 antes dos ataques, superou US$ 4 — e a promessa de evitar novas guerras, antes um trunfo do presidente, passou a ser usada contra ele.
O custo militar também cresceu: dezoito americanos morreram e 756 ficaram feridos. O uso de interceptadores Patriot e THAAD reduziu estoques e deslocou meios da Europa e do Indo-Pacífico, reduzindo a margem para sustentar simultaneamente a defesa europeia, a dissuasão asiática e a presença no Golfo.
Para Japão e Coreia do Sul, isso se somou à dependência da energia que atravessa Ormuz. No Japão, essa vulnerabilidade foi um dos fatores por trás da decisão de antecipar para o ano fiscal de 2025 a meta de destinar 2% do PIB à defesa. O orçamento previsto para 2026 é de 9 trilhões de ienes. O país também discute, ainda sem conclusão, o reconhecimento das Forças de Autodefesa na Constituição.
No Golfo, as bases americanas não impediram os ataques e converteram seus anfitriões em alvos. Isso, porém, não levou esses países a romper a relação com Washington. Esses governos combinam cooperação militar, defesa antimíssil e diálogo direto com Teerã. O Catar medeia as negociações ao lado de Omã e Paquistão pela reabertura de Ormuz. A Arábia Saudita diversifica sua proteção por meio do Acordo de Meca, enquanto os Emirados aprofundam os Acordos de Abraão — respostas distintas à mesma dúvida sobre até onde vai a proteção americana.
Premissas e tempos diferentes
Para o Irã, sobreviver não equivale a vencer. Os bombardeios agravaram a inflação, a escassez e a pobreza — a inflação de alimentos atingiu 128% em julho. A guerra também reforçou a Guarda Revolucionária, reduzindo o espaço diplomático do presidente Pezeshkian.
A morte de Ali Khamenei e a ascensão do núcleo militar fortaleceram, no debate interno iraniano, a tese de que somente uma bomba impediria nova intervenção — resultado oposto ao da não proliferação pretendida por Washington.
A AIEA sequer conseguiu verificar o paradeiro de 440 quilos de urânio enriquecido a 60%, e o chamado breakout time (o tempo necessário para converter esse estoque em uma arma nuclear operacional) — permanece estimado entre nove meses e um ano“. Para a Guarda Revolucionária, a bomba deixa de ser moeda de barganha e vira instrumento de dissuasão contra ameaças externas. Trata-se de um seguro contra uma ameaça existencial e, portanto, de uma condição para a sobrevivência do regime.”
A guerra deverá permanecer em um impasse, com bloqueio americano, controle parcial iraniano sobre Ormuz, escaramuças, bombardeios intermitentes e ameaças de escalada. Mesmo uma saída negociada dificilmente restabelecerá as condições de livre passagem anteriores ao conflito. Teerã transformou o controle da rota em instrumento de poder e não deverá abandoná-lo sem contrapartidas.
Um acordo poderia prever gestão conjunta da navegação entre Irã e Omã, desminagem por terceiros e cobrança de serviços sob supervisão internacional, além de inspeções nucleares, limites ao enriquecimento e alívio de sanções — um conjunto de condições que nenhuma das partes aceitou até agora.
A guerra confirma, assim, outro ensinamento de Clausewitz, segundo o qual a força militar é um instrumento da política e deve permanecer subordinada aos objetivos que pretende alcançar.
O cenário deste conflito confirma que a superioridade bélica sem objetivos políticos claros não se converte em resultado exitoso. Washington obteve vitórias táticas, mas não alcançou os fins anunciados. Teerã preservou o regime, mas pagou em vidas, recursos e capacidade militar.
Se Washington — condicionado pelo desgaste eleitoral e pelos custos econômicos da guerra — atingir seu limite político antes que a pressão material obrigue Teerã a ceder, a guerra continuará a reconfigurar a ordem do Golfo, as alianças americanas e a competição com Pequim. Esse prolongamento transforma o conflito em uma disputa entre dois tempos: o tempo político dos Estados Unidos e o tempo material do Irã.
Alexandre Ramos Coelho não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Por Alexandre Ramos Coelho, Coordenador e professor na Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais, Fundação Escola . Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.