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Caso de vidro em copo d'água é sintoma de violência indiscriminada contra professores em uma sociedade adoecida

Na manhã de terça-feira, 30 de junho, a professora Michele Ramos, de 37 anos, encontrou uma lâmina de vidro em seu copo de água na EMEFI Ildete Mendonça Barbosa, escola municipal de São José dos Campos (SP) onde leciona. Michele havia pedido a um aluno do 8º ano que lhe buscasse

08 de Julho de 2026, 08:29 · Alfredo Suppia, Professor Associado do Depto. de Multimeios, Mídia e Comunicação, Inst. de Artes, Universidade Estadual · 6 min de leitura
Caso de vidro em copo d'água é sintoma de violência indiscriminada contra professores em uma sociedade adoecida

Na manhã de terça-feira, 30 de junho, a professora Michele Ramos, de 37 anos, encontrou uma lâmina de vidro em seu copo de água na EMEFI Ildete Mendonça Barbosa, escola municipal de São José dos Campos (SP) onde leciona. Michele havia pedido a um aluno do 8º ano que lhe buscasse água; ele teria colocado o vidro no copo e exibido a ação aos colegas, que nada disseram — apenas zombaram: no lugar dela, não beberiam aquela água.

O caso é investigado como tentativa de lesão corporal. Michele precisou buscar atendimento médico e relatou ter adoecido psicologicamente pelo que vive no trabalho.

Um sintoma, não um acidente

A violência contra docentes — de qualquer nível de ensino, na rede pública ou particular — não começou nesse episódio e, infelizmente, não terminará nele. Trata-se do sintoma de uma sociedade adoecida, em que pais ausentes delegam à escola a função de civilizar seus filhos e filhas. Uma excelente análise do caso foi feita pelo psicólogo Marcos Lacerda, no canal Nós da Questão.

Os dados confirmam: não é exceção. O Brasil lidera o ranking de violência contra professores da pesquisa TALIS, da OCDE — 12,5% dos docentes relatam agressões verbais ou intimidação de alunos ao menos uma vez por semana, quase o quádruplo da média internacional. Atendimentos de saúde por violência no ambiente escolar saltaram de 3,7 mil (2013) para mais de 13 mil (2023); desde 2024, o MEC apoia um Observatório Nacional da Violência contra Educadores.

Se antes a violência contra professores parecia distante — confinada às periferias das grandes cidades, entre o assédio do tráfico e as balas perdidas —, o caso da professora Michele demonstra que a violência não escolhe mais o CEP da escola neste país. Cidades com alto Índice de Desenvolvimento Humano, como São José dos Campos, entram na rota da falência civilizatória que grassa na educação brasileira. O antropólogo Darcy Ribeiro já havia nos alertado, décadas atrás, de que a crise educacional no país não era propriamente uma crise, mas um projeto — um projeto das elites, para as quais um povo escolarizado e crítico sempre foi mais ameaça do que promessa.

Entrar em sala de aula tem tudo para dar errado

O cotidiano escolar contemporâneo é um campo minado: estudantes desmotivados, descrentes da educação como via de emancipação, capturados pelas redes sociais; celulares vibrando freneticamente enquanto o professor — estressado, sobrecarregado e desprestigiado — tenta exercer em paz o seu ofício. O resultado é adoecimento em escala: transtornos mentais como burnout, estresse e depressão já são a principal causa de afastamento de professores das salas de aula, superando os distúrbios de voz, e três em cada quatro profissionais da educação apontam questões psicológicas entre os principais fatores de desistência da carreira.

Muito disso dialoga com o que Mark Fisher relatou em Realismo Capitalista (2009), a partir de sua experiência como professor na rede pública inglesa, e com o que Benamê Kamu Almudras (pseudônimo) antecipou no ensaio “Parece revolução, mas é só neoliberalismo”, publicado pela revista piauí em janeiro de 2021.

O ensaio gerou uma série de respostas, a maioria rechaçando sua tese. Minha experiência de mais de vinte anos no ensino superior, público e privado, me leva a concordar com vários de seus pontos: o que menos há entre os mais jovens é espírito revolucionário; o que existe é medo e pânico, instilados por altas doses de neoliberalismo diluído em redes sociais e sonhos de sucesso como empreendedor ou influencer. O texto de Almudras merecia contra-argumentações — mas o que mais se viu foram modismos travestidos de reação, progressismos “artesanais” que não atacavam os pontos nevrálgicos da situação.

O professor como inimigo

E o ponto nevrálgico é este: a docência é uma das profissões mais desprestigiadas do Brasil, com uma das menores remunerações relativas do país. Segundo o relatório Education at a Glance 2024, da OCDE, o salário do professor brasileiro dos anos finais do ensino fundamental — a etapa em que leciona a professora Michele — é 47% menor que a média dos países da organização. E o abismo não é apenas externo: dados da PNAD mostram que a remuneração média dos docentes das redes públicas estaduais equivale a cerca de dois terços da média das demais ocupações de nível superior. Não foi à toa que Vladimir Safatle escreveu “Não seja professor” (Folha de S.Paulo, 5 de maio de 2015, sob o impacto da repressão policial aos professores em greve no Paraná. A agenda neoliberal avançou tanto desde então, e com tamanho reforço da extrema-direita, que o professor passou a ser visto como um inimigo — no mínimo, um incômodo.

O neoliberalismo difuso transformou o estudante — do ensino privado e, cada vez mais, do público — em “cliente”: contribuinte, ou filho de contribuinte, comprador de uma “mercadoria” chamada diploma. Se as aulas são “chatas”, a culpa é do professor, que não tem o talento de um TikToker para capturar a atenção dos jovens. As leituras tornaram-se maçantes; o debate em sala de aula, um placebo. E o professor, posto no meio do “bom negócio” entre quem quer o diploma e quem quer concedê-lo, virou estorvo.

Sob ataque de uma opinião pública que os vê como economicamente secundários — não por acaso, apenas 12,6% dos docentes brasileiros acreditam que a profissão é valorizada pela sociedade, contra 31% da média global —, professores têm sua autoridade em sala de aula minada, em muitos casos reduzida a zero. Imaginem um cirurgião desautorizado na sala de cirurgia, um juiz no tribunal, uma atriz no palco. Lembram-se da “Escola Base”, destruída por acusações infundadas amplificadas pela mídia? Dificilmente veríamos um linchamento equivalente contra uma “Escola Naval” ou uma “Escola Paulista de Medicina” – pois nestas a corporação não é apenas de professores, mas de médicos ou militares. O desprestígio tem endereço certo: o educador que tem por ofício formar cidadãos críticos e autônomos.

Mal-estar na civilização

Poucas funções sociais exigem tanto humanismo e civilização quanto a educação. Freud nunca esteve tão certo com seu “mal-estar na civilização”, e hoje podemos concluir que o capitalismo tardio é incompatível com a interdição do desejo. O que poderia render ricas discussões sobre reformas na educação, pluralidade e inclusão acaba degenerando em puro desrespeito pelo professor e pela professora — e, no caso da professora Michele, pela vida humana, pura e simplesmente.

A extrema-direita vende soluções fáceis, pusilânimes e cretinas para o problema: armem o professor e ponham-no numa farda. Parte da esquerda, ou parte dos progressistas, levanta poeira na discussão ao inundar a pauta com frivolidades. É urgente uma campanha que restaure a honorabilidade do/a professor/a e o respeito à sua figura (humana). Isso passa por valorização na carreira, melhores salários, proteção física e psicológica no exercício de sua função. Antes de pensarmos em “sala de aula invertida”, “aprendizagem baseada em problemas”, etc., é preciso respeitar o/a educador/a.

O caso de São José dos Campos é sintomático de uma falência civilizatória que vitima, antes de tudo, a Educação como pilar de um país. O desprestígio da carreira docente espelha um colapso total que vem sendo evitado, a duras penas, pela luta inglória de indivíduos espalhados pela sociedade — mas carentes de um projeto de nação que restaure o respeito e a humanidade, com vistas ao desenvolvimento pela Educação. Darcy Ribeiro tinha um nome para isso: projeto. Falta-nos, ainda, o nosso.

Alfredo Suppia recebe financiamento do CNPq como bolsista de produtividade em pesquisa nível 1C.

Por Alfredo Suppia, Professor Associado do Depto. de Multimeios, Mídia e Comunicação, Inst. de Artes, Universidade Estadual . Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.

Fonte: https://theconversation.com/caso-de-vidro-em-copo-dagua-e-sintoma-de-violencia-indiscriminada-contra-professores-em-uma-sociedade-adoecida-286918

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