Brasil precisa aproveitar as potencialidades da Economia da Longevidade
Durante milhares de anos, as taxas de mortalidade permaneceram elevadas e o tempo médio de vida era curto. Mas o século XX foi marcado por umextraordinário aumento da expectativa de vida ao nascer. Em escala global, ela saltou de cerca de 32 anos, em 1900, para 66 anos, em 2000.
Durante milhares de anos, as taxas de mortalidade permaneceram elevadas e o tempo médio de vida era curto. Mas o século XX foi marcado por um extraordinário aumento da expectativa de vida ao nascer. Em escala global, ela saltou de cerca de 32 anos, em 1900, para 66 anos, em 2000. Ou seja, o tempo médio de vida da humanidade mais que dobrou em apenas cem anos.
Essa transformação única representou uma conquista sem precedentes, um marco que deve ser celebrado e compreendido como passo fundamental para o avanço do desenvolvimento humano e para a ampliação dos níveis de bem-estar social.
A queda histórica da mortalidade abriu caminho para a redução das taxas de natalidade. Diante da maior sobrevivência infantil, as famílias puderam ressignificar o tempo dedicado às tarefas reprodutivas e domésticas: em vez de priorizarem a quantidade de filhos, passaram a investir na qualidade de vida e no desenvolvimento pleno de cada criança.
Esse processo descortinou um universo de possibilidades para as mulheres, viabilizando o empoderamento feminino na saúde, na educação, no mercado de trabalho, na cultura e nos espaços de poder.
Dessa forma, a transição demográfica pode ser considerada um triunfo civilizatório e o maior fenômeno de mudança de comportamento de massa da história. Ela ocorre em simbiose com o que Karl Polanyi chama de A Grande Transformação dos últimos 250 anos, que marcou a passagem das sociedades tradicionais para a sociedade de mercado e urbana. Assim, a transição demográfica revela-se filha da modernidade e mãe de uma nova estrutura etária.
Longevidade deixa de ser privilégio
Se o século anterior domou a mortalidade precoce, o século XXI será definido pelo aumento expressivo da proporção de idosos, pois a longevidade deixou de ser privilégio de poucos para se tornar fato comum da dinâmica sociodemográfica.
Porém, a velhice não deve ser encarada como um fardo ou uma etapa de mera fragilidade; afinal, a alternativa a ela é bem pior. Mais do que estender o horizonte temporal, envelhecer significa triunfar sobre a brevidade da vida. Se a longevidade é o nosso prêmio máximo contra a finitude, a verdadeira vulnerabilidade não reside na ancianidade em si, mas na impossibilidade de alcançá-la.
Historicamente, nenhum país alcançou progresso socioeconômico sustentável sob o peso de elevadas taxas de mortalidade e fecundidade. A transição demográfica ocorre em simetria com o desenvolvimento das sociedades, configurando-se como pré-requisito fundamental para a prosperidade das nações.
O Índice de Envelhecimento (IE) no mundo era de 22 idosos (60+) para cada cem jovens (0-14 anos), em 1950, passou para 61, em 2025, e deve chegar a 180 idosos por cem jovens, um aumento de oito vezes em 150 anos. No Brasil, o IE era de 9,4 idosos para cada cem jovens, em 1950, passou para 86, em 2025, e deve chegar a 323, em 2100, um aumento de 34 vezes em 150 anos.
O ponto de inflexão nacional – o instante em que a linha dos idosos cruza e supera a dos jovens – ocorrerá já em 2029, antecipando-se em quase duas décadas à média mundial. Se o século XX foi marcado pelo incrível salto da expectativa de vida ao nascer, o século XXI será marcado pela mudança da estrutura etária.
País não deve insistir numa visão estática das relações geracionais
O desafio mais premente decorre do esgotamento do primeiro bônus demográfico – o grande aumento da proporção de pessoas em idade de trabalhar chegou ao fim.
No Brasil, a proporção de pessoas consideradas em idade ativa já está em declínio, o que ameaça disparar uma armadilha fiscal geriátrica. Mas isto só ocorrerá se o país insistir em uma visão estática das relações geracionais.
O roteiro tradicional da vida – aprender na juventude, produzir na idade adulta e descansar na velhice – perde o sentido diante de uma população que vive mais e anseia por permanecer ativa, produtiva e integrada.
Esse foi um dos aspectos que abordei no seminário Perspectivas da Saúde no Brasil, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz), no último dia 10 de junho.
A inversão da pirâmide etária brasileira é uma realidade inexorável, mas, ao contrário do que apregoam os catastrofistas demográficos, está longe de ser uma sentença de morte para a prosperidade e o avanço dos direitos de cidadania.
No topo dessa nova estrutura etária, abrem-se pelo menos duas janelas estratégicas para o florescimento social: os bônus da produtividade e da longevidade.
Diferentemente do primeiro, o segundo bônus (ou bônus da produtividade) não é efêmero. Ele pode gerar frutos indefinidamente, desde que ancorado em investimentos robustos em educação, saúde, ciência, tecnologia e infraestrutura.
Uma força de trabalho numericamente menor pode produzir mais e melhores bens com menor uso de insumos humanos e ambientais, compensando a retração demográfica por meio da eficiência e da inovação.
A outra janela se abre com o terceiro bônus demográfico (ou bônus da longevidade). Este potencial emerge quando a sociedade expande sua proporção de idosos em contextos de vida saudável.
Enquanto os dois primeiros bônus dependem essencialmente da estrutura etária e da acumulação de capital, o bônus da longevidade decorre da arquitetura social desenhada para acolher vidas longas. Sua marca é a expansão dos anos vividos com autonomia. Nesse cenário, o capital humano acumulado permite que as gerações mais velhas compartilhem uma vasta biblioteca de experiências e saberes.
Em síntese, a Economia da Longevidade pode ser entendida como uma nova etapa da evolução do desenvolvimento humano, resultante da transição demográfica, do aumento da expectativa de vida e da crescente participação da população idosa na estrutura etária.
Trata-se de um ecossistema que engloba o conjunto das atividades econômicas voltadas às necessidades de todas as gerações, com especial atenção às potencialidades da população 50+.
Mais do que o consumo e a produção de bens e serviços, o conceito abrange atividades individuais e coletivas, integrando fluxos formais e informais, como o trabalho voluntário, a economia do cuidado e a mentoria intergeracional.
Dessa forma, a Economia da Longevidade estimula a cooperação entre o setor público, a iniciativa privada e a sociedade civil, contribuindo para a construção de sociedades mais inclusivas, sustentáveis e solidárias.
José Eustáquio Diniz Alves contribui com artigos para o Portal Ecodebate, Portal do Envelhecimento e # Colabora
Por José Eustáquio Diniz Alves, Doutor em Demografia, pesquisador convidado do Centro de Estudos Estratégicos (CEE), Fundaçã. Artigo originalmente publicado em The Conversation Brasil sob licença Creative Commons BY-ND 4.0.